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Alice Betânia
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coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS
A arte de fingir

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Este era o poema que Raílda acabara de ler. Era o seu predileto e, muitas vezes, mais uma ferramenta de trabalho que somente um poema. Ela era uma mulher aparentemente alegre, engraçada, não economizava uma boa gargalhada em certas situações. Mas contradizendo seu bom-humor, seus olhos ocultavam uma tristeza profunda, talvez causada pela solidão e a instabilidade de sua profissão. Raílda era uma carpideira, profissão antiga que vinha passando de geração em geração.
Olhou para o relógio, percebeu que já estava na hora. Fechou o livro, levantou-se e, diante do espelho, conferiu se estava vestida adequadamente. O preto sempre lhe caia muito bem e buscou o último acessório: um chapéu preto com véu que lhe cobria parte do rosto.
Ainda diante do espelho, abriu um largo sorriso, ensaiou uma expressão de tristeza e dor, depois voltou a sorrir novamente. Passou pela mesinha de centro, conferiu as contas vencidas inclusive o aviso de corte de luz, respirou fundo e saiu. No caminho, já começou a preparar-se para a missão. Concentrou-se, buscando algumas lembranças triste de sua vida, inclusive a ameaça de ficar no escuro.
Finalmente chegou ao local de trabalho. O cemitério da paz. Flores de diversas espécies decoravam o ambiente. Coroas, com mensagens de saudade, faziam sua última homenagem ao morto:
“Saudade da turma dos pães-duros”. “ Saudade do boteco do João “Saudade da esposa e filhos”.
Com uma postura invejável, Raílda cumprimentou a família e se dirigiu ao caixão. Ao encarar o morto inerte, seu coração disparou descompassadamente. Teve de engolir o susto. Ficara tão pálida quanto o defunto. Tratava-se de Frederico, seu único e grande amor.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 14h43
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II.
Conheceram-se no colégio, viveram uma grande paixão de juventude. Mas este amor foi interrompido pela mudança da família dele para o exterior. Nunca mais se viram. Frederico respondera somente uma de suas várias cartas. Nela, Frederico contava maravilhas de um mundo distante de sua realidade. Uma única carta, um único grande amor.
Depois de Frederico, a vida de Raílda continuou sendo só saudades, sempre disfarçadas por risadas largas e sonoras. Sentia saudades: do primeiro olhar; do primeiro toque de mãos; do primeiro beijo; das juras de amor; dos planos para o futuro; da alegria e do descomprometimento com as regras da vida. Railda sempre alimentara a esperança de um reencontro. Quando descobriu que isso não seria mais possível, sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Seu coração doía tanto... que se desfez em lágrimas.
Tocou levemente a face do morto, agora, já não tão firme, e quente como antes. O rosado viçoso deu lugar a um amarelo triste e frio. Seus cabelos fartos e negros, agora escassos e brancos. O amor de Railda, não mudara, suportara o tempo bravamente.
Chorou, chorou e chorou. Os parentes que haviam contratado seus serviços se entreolharam, achando um tanto quanto exagerado sua performance. Mas o que para alguns era fingimento, para Raílda era pura dor, uma dor incapaz de ser amenizada, talvez uma das mais sinceras do velório.
Ofereceram-lhe um chá de camomila. Foi preciso repor os lencinhos de papel. Raílda havia se perdido em suas lembranças e dor, sem noção do tempo. Tinha sido contratada para chorar apenas durante uma hora... foi quando um parente a chamou a um canto, dispensando seu trabalho.
Ela voltou ao caixão olhou pela última vez para Frederico, despedindo-se não só do seu grande amor, mas também de suas esperanças e sonhos. Confortou-se ao observar as mensagens, as flores, os amigos e a família. Frederico tinha sido um homem realizado e feliz.
Do lado de fora do velório, Railda recebeu pelo seu trabalho, e se foi. Com aquele dinheiro pagaria a conta de luz... embora sentisse que seu coração permaneceria, dali em diante, permaneceria em plena escuridão.
por Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 14h40
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coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS
As quatro fases da Lua

Meninas, desçam a coluna de estrelas imediatamente.
Hoje é o grande dia! Finalmente, descobri a maneira
de acabar com a briga entre vocês.
Atenciosamente, Mago Thales.
Este era o conteúdo da missiva que o Mestre enviara às suas alunas. Tratava-se de Farzana, Kylka, Malvy e Aisha, estagiárias do curso de bruxas do Mago.
Havia entre elas uma acirrada disputa pelo domínio lunar. Cada uma delas, em suas respectivas auto-suficiências, achava-se capaz de governar a Lua, e a decisão final, que resolveria tudo, cabia ao mestre que, porém, nunca se convencera de que elas fossem capazes de tal missão.
No último encontro, o Mestre, constrangido, não conseguia dizer que nenhuma delas estava preparada para tal tarefa. Nenhuma solução apresentada, a coisa pegou fogo. Para protestar, elas se foram, abandonando o curso.
Agora, a carta do Mestre as renovava de esperanças. Elas atenderam prontamente o chamado. Ao vê-las, o Mago não conteve a satisfação, mas disfarçou o sorriso em um pequeno movimento com o canto da boca. Elas, ainda cobertas pelo orgulho-próprio que havia lhes acabado a amizade, mal se olhavam. Mas antes que brigassem novamente, o Mago logo começou a falar.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 13h28
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(continuação)
_ Alunas queridas quanto tempo! Confesso que senti saudades. Trabalhei intensamente nos últimos tempos para que vocês fizessem as pazes.
Farzana, enraivecida, não se conteve e logo tratou de perguntar:
__Então o mestre percebeu que eu sou a bruxa mais capaz para tomar conta da lua e assim tornar-me sua Deusa?
_ Ela continua convencida – resmungou Kylka.
O Mestre ignorou e prosseguiu.
__ Nada disso. Sei que vocês quatro querem se tornar a grande Deusa da Lua, tarefa que acho pesada demais para uma só. Assim, decidi dividi-la em fase, para que cada uma de vocês tenha sua própria faceta a governar. A tarefa se tornará menos cansativa e muito mais agradável.
_ Não achei uma boa idéia. Acho que não existe espaço para quatro deusas neste universo. Somente eu bastaria, esbravejou novamente Kylka.
_ Escutem o que estou falando. Para alcançar a lua em toda sua plenitude, vocês deverão se desprender de todo e qualquer sentimento negativo que exista dentro de vocês. As fases estão prontas, cada qual com sua peculiaridade, esperando por cada uma de vocês.
As quatro bruxas se entreolharam, num misto de decepção de curiosidade.
__ Vocês irão gostar do que lhes preparei. Nada mais, nada menos do que cada uma merece. Para a corajosa Farzana, preparei a lua nova, o momento da busca por novos caminhos, ainda que pautados pela escuridão.
Farzana sorriu, feliz com o reconhecimento do traço mais marcante de sua personalidade. O Mestre prosseguiu:
__ Para a sensível e maternal Malvy, separei a fase crescente, momento de plantarmos e cuidarmos de tudo aquilo que desejamos ver se desenvolver.
Malvy chorou, emocionada de tão satisfeita.
__ Para a iluminada e vaidosa Aisha, deixei a plenitude da lua cheia, desejando que sua energia e brilho sirva de norte para todos aqueles que querem alcançar os seus objetivos. E finalmente...
A geniosa Kylka ficou esperando durante alguns segundos. Não podia acreditar que havia ficado para o final. O que o Mago teria reservado para ela?
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 13h27
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(continuação)
__ Para a impulsiva Kylka, reservei a fase minguante, a do término dos ciclos, do final das jornadas e do fechar das tormentas.
O Mago terminou de falar e desapareceu por alguns instantes, dando a entender que logo retornaria.
Kylka se assustou. Como poderia ficar justamente com a fase do término do ciclo? Era impulsiva demais, e incapaz de permitir o final de qualquer coisa que não tivesse lhe saído a contento. As outras bruxas também estranharam, e se solidarizam com Kylka.
__ Realmente, não entendo – disse Aisha.
__ Puxa, ele deve ter algum motivo – confiou Malvy.
__ Nem vem, Kylka. Não me olhe assim, que eu estou felicíssima com a fase cheia.
Kylka pensou, pensou, e no final entendeu que deveria reclamar com o mestre, tão logo ele retornasse.
Uma fumaça se formou no ambiente, e o Mestre se materializou uma vez mais.
__ Mestre, eu não entendo a sua escolha. A Farzana sempre foi a mais brava, briguenta e corajosa de nós quatro. A Malvy, sempre foi a maternal, carinhosa e, porque não dizer, hipersensível. A Aisha sempre foi cheia de energia, alegria e, claro, vaidade extrema. Todas elas estão coerentes com as fases nas quais o senhor as colocou. Agora eu, Mestre, sempre fui impulsiva, desbocada, desmedida, sempre hiperativa, querendo mudar e...
__ Você é, por isso tudo, perfeita para a fase minguante, minha querida.
__ Não entendo, Mestre. Como assim? Como que eu posso ser perfeita para uma fase ligada ao final, ao término, à última parte da jornada?
__ Aí que você se engana, minha querida Kylka. As jornadas da eternidade são feitas de ciclos, ou círculos, caso prefira. Não há fim, mas constante renovação. Isso significa que o que você chama de final, não o é. Tampouco deve estar ligado à tristeza, à falta de energias ou à ausência de sonhos. O final de um ciclo deve estar ligado à força que nos faz querer mudar. Por isso, Kylka, você é perfeita para a fase minguante, para a fase em que sentimos a necessidade de mudar, que percebemos que as coisas já não estão em sua plenitude e que logo, um novo caminho deverá ser encontrado. Kylka, a impulsiva, dará à Lua a capacidade de se permitir aventurar em uma nova jornada, ainda que para tanto, tenha uma vez mais, de mergulhar na escuridão.
As quatro ficaram boquiabertas com a explicação do Mestre, e perceberam que realmente havia algo que as unia. Tinha personalidades opostas, mas complementares, e não poderiam continuar brigando entre si. A amizade retornou, e puderam se tornar parte do mesmo ciclo eterno da renovação.
Assim tiveram origem as fases da lua. Cada uma com sua magia, forma e cor peculiares, sempre a nos regar de boas energias, influenciando de maneira sutil nossas atividades, sensibilidades e emoções.
por Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 13h20
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coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS
Água, suor e lágrimas

_ Eu não te amo mais... Você não significa mais nada para mim...
Foram estas palavras ácidas e sem nenhuma compaixão que Glória ganhou de presente de aniversário do homem que intitulou seu marido por mais de meio século.
Apesar de muitas rugas, conseqüência do constante castigo do sol, ela chegara com muita dignidade aos setenta anos. E ele, totalmente absorvido pelo álcool.
Aquelas palavras corroeram de maneira perversa sua alma, causando-lhe um impacto profundo, tirando-lhe o chão. Uma mulher tolerante, esposa dedicada, mãe presente e uma administradora do lar incomparável. Naquele momento encontrava-se de costas lavando a louça do almoço.
Enquanto a água descia torneira abaixo, os insultos continuavam e lentamente nascia nela uma sede de viver.
_ Esta comida está uma droga... Você está ficando velha, não sabe nem mais cozinhar...
Ela continuava muda, o seu silêncio agredia mais que mil palavras ditas de uma única vez. E como agredia. Porque não era um silêncio de resignação, era um silêncio de sabedoria.
“Acho que a cachaça o cegou, caso contrario perceberia que está tão velho quanto eu”, pensava ela, emudecida. “O bom de tudo isso, é que independente de ser mulher ou homem, bonito ou feio, rico ou pobre um Senhor simpático chamado tempo vem para todos em igual proporção”.
Sua vida passou como um filme: o primeiro olhar, a conquista, o casamento, os filhos, os netos, as dificuldades, as decepções, traições, mentiras, e quantas vezes seu corpo exalou sofrimento em suor e lágrima.
A água da torneira continuava a cair num ritmo contínuo, tratando de lavar a louça e leva consigo frustrações, mágoas, todas as más recordações. O contato gelado em suas mãos e o barulho do escoar no ralo a acariciavam. Sentiu sua alma ser lavada e, com a leveza de uma pluma, virou-se em diagonal para responder à altura ao seu agressor, que covardemente já saia do ambiente:
- Mesmo tanto lhe ofereço.
Tirou o avental, secou as mãos e tratou de ir para o quarto fazer as malas. Iria para perto da irmã, aproveitar seu convite. “Venha morar comigo, essa cidade é uma estação de águas, fonte de vida”. Pois bem, no gotejar do dia-a-dia, finalmente a decisão havia sido tomada.
Inodora, incolor, insípida, mas essencial. Foi libertada pelo transbordar da água fria, e renasceria com o magnético calor das estações termais. Esse precioso recurso da terra, com sua força inigualável, a havia libertado da pior prisão que existe. A prisão dentro de si mesma.
por Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 14h02
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coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS
O cair da venda

Quanto dos teus olhos,
tem o olhar que te desejou ?
Quanto dos teus lábios,
tem o beijo que te conquistou ?
A língua, o beijo, a palavra,
Par constante com a volúpia.
Não me compare a luxúria,
sou rara e comum como o amor
O cair da venda, o abrir dos olhos,
A libertação, a descoberta, a evolução.
O desfile da mão experiente sobre o corpo nu
A sensualidade de cada centímetro explorado
E o previsível encontro de pés.
Pele, suor, gosto, sangue,
A lubricidade é minha amante
Por Ela a mentira, a traição, a morte,
Se abriga constante no fundo,
Bem lá no fundo do meu coração.
por Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 17h10
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coluna ALICE NO PAÍS DA LETRAS
O vermelho do meu coração

O vermelho do meu coração
é um vermelho fogo
fogo que queima
vermelho encarnado
Carne que dói.
É um vermelho luto
sangue derramado
vermelho vida
Amor e pecado
É um vermelhão sangue
sangue que ferve
vermelho que proíbe
anelo à flor da pele
É um vermelho que impõe.
É um vermelho que envaidece.
É um vermelho que ostenta
É um vermelho que enlouquece.
Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 13h53
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