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Fernando Américo
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coluna AMERICANA
Primeira(s) Pessoa(s)

Seis da tarde de um dia de verão em Lisboa. Um funcionário público sai de sua repartição e caminha pelas ruas do Chiado, evitando como que por capricho pisar nas pedras negras da calçada. Sobe os degraus amplos que levam ao pequeno restaurante conhecido como A BRASILEIRA.
- Então, senhor Fernando, achei que não vinha hoje, pá!
O homem não responde ao garçom. Cofia calmamente os bigodes, se sentando em sua mesa de costume, na esplanada, do lado de fora do restaurante. Mantém o ar calmo e reflexivo de quem não sabe onde está, e quem o visse pensaria que seu nome não era Fernando, que o garçom o tinha confundido com outra pessoa.
- ‘Tá a me ouvir? Ei, senhor Fernando… Senhor Fernando Pessoa!
Finalmente o homem acorda, pára de cofiar os bigodes, mal cumprimenta o garçom que o vê todos os dias, pede seu habitual café (“uma bica cheia, se faz favor”) e uma ginjinha. O garçom, já acostumado com o fato do cliente nunca responder seus gracejos, e o tratar sempre com uma certa rispidez superior, traz os pedidos, depois encosta-se ao balcão enquanto observa o curioso homenzinho sentado sozinho, como sempre, numa mesa para quatro pessoas.
Enquanto mexe o açúcar do café com a colherzinha de prata, Fernando ouve passos apressados; sem se virar sabe que Álvaro de Campos chegou.
- Então, homem, por que esta gana de me encontrar a esta hora? Sabes que acordo tarde, e que não gosto de sair de casa enquanto ainda é dia. Só a noite é minha amiga, Fernando, bem o sabes.
- Espera; quero que cheguem os outros também.
- O palerma do Ricardo Reis e o Mestre Alberto? Ora vivas, vamos ter uma reunião e pêras! Sempre te encontras com apenas um de nós… Qual é a ocasião para estarmos todos juntos hoje?
- Já vais saber.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 17h32
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II
Pouco depois vinham andando pela rua de cima Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Vinham discutindo, como sempre, Ricardo tentando convencer Alberto a escrever suas memórias.
- Sabes que não acredito em eternidade e em glórias passadas; não quero deixar nenhum monumento literário para que se lembrem de quem eu fui. E além do mais, as memórias são minhas, não quero dividi-las com ninguém.
- Se calhar, queres que nós escrevamos tuas memórias. Já falei que não tenho tempo! Quem sabe nosso amigo Fernando Pessoa não pode se entregar a esta inglória tarefa de contar tua história?
- Já te disse que não quero ser lembrado; quando morrer, morri, pronto. E de mais a mais, nosso amigo Fernando é muito ocupado, já tem mais o que fazer do que escrever histórias de outrem.
E assim se aproximam da mesa, sentam-se, cumprimentam os outros dois, revelam também sua surpresa pelo urgência do encontro marcado, perguntam a Fernando Pessoa o porquê de tanta urgência.
- Quero comunicar a vocês que pretendo me casar em breve, com Ophélia.
Alberto Caeiro se recosta na cadeira, francamente surpreendido. Ricardo Reis pára com seu copo a meio caminho da boca, e Álvaro de Campos é o único a falar.
- Com que então vais dar o nó? Então vai nos abandonar, o maroto! Nunca pensei…
- Poderás ainda escrever poesias conosco?, pergunta Alberto Caeiro, olhando sorrateiramente para Ricardo e Álvaro.
- Este é o problema. Ophélia anda cansada de me ver escrevendo até tarde, à luz de lampiões de gás. Diz que gasto minha saúde, que a ginjinha ainda vai me matar, e ela diz que me ama, que quer cuidar de mim.
- Mulheres! Sempre dispostas a se entranhar em nós, a nos conhecer melhor do que nós mesmos…
Ao dizer isto, Ricardo Reis se vira para o amigo Fernando, como que mostrando a sua lealdade canina a ele. Fernando tem vergonha de encarar os olhos dos amigos, que mostram sua decepção.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 17h31
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III
- Bem, não é por isso que vamos deixar de nos ver…
- Ophélia diz que devemos nos mudar definitivamente para Durban.
Os quatro se calam. As conversas dos outros clientes nas mesas são ouvidas de maneira perfeita e cruel, num silêncio que pode ser cortado à faca. Mas o que corta o silêncio é a risada de Álvaro, aquela risada que parece vir do fundo da alma para escarnecer de tudo e todos.
- Com que então a menina quer-te só para ela…
- Nunca pensei que as cartas de amor que te ajudei a escrever tivessem tanto efeito…
- Não tiveram, Alberto. Ophélia rasgou-as todas. Acha que são ridículas.
- Todas as cartas de amor são ridículas.
Álvaro fala com uma certa malícia na voz. Alberto e Ricardo percebem que ele solta a frase quase como um desafio a Fernando, como se pedisse que ele completasse. Um brilho nos olhos dos três homens denuncia a esperança de que Fernando se entregue mais uma vez à poesia e esqueça da traidora, da vil, da egoísta Ophélia, aquela que quer terminar esta amizade tão profícua e duradoura que existe entre eles.
Fernando levanta os olhos, já iluminados pela faísca da poesia.
- Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas – completa Fernando.
Fernando pega caneta e papel, escreve as duas frases. Alberto, Álvaro e Ricardo se entreolham, vitoriosos: não será desta vez que Ophélia vencerá.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 17h30
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IV
No balcão, o garçom, depois de uma maratona de pedidos, volta a olhar para o solitário Fernando Pessoa.
“Que será que ele tem? Vive sozinho nessa mesa, pede sempre o mesmo – uma bica e uma ginja – depois fica parado por um tempo enorme, apenas olhando fixamente para o nada… Depois, como que por encanto, como se tivessem lhe soprado ao ouvido algo que ele não pode esquecer, começa a escrever febrilmente com sua caneta e um papel. Quem será esse homem? Por que é tão solitário? O que ele escreve? Que prazer pode ter uma vida como essa?”
O garçom, perdido nestes pensamentos, vê Fernando Pessoa pedir a conta. Vai até ele, recebe o dinheiro, dá-lhe o troco, e não resiste a uma observação:
- O patrão sempre me pergunta se o senhor não poderia sentar em outra mesa, menor… Diz que esta tem quatro lugares, e como o senhor se senta sempre sozinho, não tem necessidade, e ele poderia deixar esta mesa para clientes que venham acompanhados…
- Não, não posso. Se seu patrão quiser, posso pagar mais…
- Não se trata disso…
- Então por favor, peça ao seu patrão que não me incomode mais com este pedido.
O garçom concorda, pede desculpas, enquanto vê Fernando Pessoa se afastar. Sente o sangue ferver de ódio do pequeno homem de bigodinho, sempre mal-educado. Ele se acha muito importante, pensa o garçom, mas é tão pequeno quanto eu. Nunca será lembrado, quando morrer ninguém pensará mais nele. Será esquecido para sempre. Com este pensamento consolador, o garçom volta à sua maratona de pedidos.
Obs: Fernando Pessoa foi um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Escrevia em seu nome, mas também em outros nomes, conhecidos como seus heterônimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, e Ricardo Reis. Cada um tinha sua individualidade, a ponto de Pessoa ter desenhado o mapa astral de cada um deles. Ophélia Queirós era a namorada de Fernando Pessoa; nunca se casaram. Fernando Pessoa morreu depois de editar um único livro, MENSAGEM. Depois de sua morte é que se descobriu a riqueza da poesia de seus heterônimos, que apesar de nunca existir, deixaram uma obra consistente como a de poucos poetas de carne e osso.
por Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 17h29
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coluna AMERICANA
A hora marcada

Nova York, 04/04/04.
O relógio digital marcava 4 horas e 2 minutos da madrugada. Sofia apertava o xale contra os ombros, espantando o frio do início de primavera em Nova York, enquanto esperava passar mais um minuto do relógio. Seus ossos doíam; era a artrite que piorava ao menor sinal de frio. Mas ela não se importava; perto do que ela já tinha passado há 60 anos atrás, a dor da artrite podia ser considerada um prazer. Era só se lembrar do frio do porão da fábrica de picles, na Kalverstraat Street, em Amsterdã. Do frio e do cheiro acre dos picles estragados que escondiam a ela e a sua família…
Como um passe de mágica, a dor da artrite ficou mais suportável. Lágrimas vieram aos seus olhos ao se lembrar do irmão Samuel, um pequeno gênio da matemática, sempre obcecado pelo número 4… Na época, ele era o irmão mais velho. Sofia esperava reencontrá-lo agora, mas não sabia se seu plano daria certo. Durante anos ela tinha estudado as capicuas – uma confluência de horas, minutos, segundos, dia, mês e ano, que configuravam uma data perfeita, um palíndromo do tempo, formando um numeral que poderia ser lido de trás para frente, e de frente para trás. Algo como as 11 horas, 11 minutos e 11 segundos do dia 11 de Novembro (11) do ano 1111. Samuel era fascinado com estas datas perfeitas, e acreditava que, se alguém se preparasse muito, poderia aproveitar o exato momento de uma capicua para viajar no tempo e no espaço. Em sua infância, Sofia não acreditava muito nisso; observava com desprezo Samuel fazendo seus cálculos, planejando o que fazer no momento exato da primeira capicua que iriam viver, no dia 04 de Abril de 1944. Naquela época, mal podiam imaginar onde estariam nesta data…
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 08h50
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Amsterdam, 04/04/44
O ponteiro maior se aproximava do quarto indicador do relógio de pulso. Em breve seriam 4 horas e 4 minutos. Samuel Davidovitz havia esperado por este momento por quatro longos anos; desde que a Alemanha invadira a Holanda, desde que ele tinha tido que se esconder com o pai e as duas irmãs no porão fétido da loja de picles. Há quatro anos eles não podiam sair, se alimentavam apenas do que era jogado na ante-sala do porão – os picles mais azedos, ou estragados, aqueles que não serviam para comer. A mãe de Samuel já tinha morrido há muito tempo; tinham-na enterrado num dos cantos do porão, sem poder dar a ela um enterro legítimo. Samuel ainda estremecia quando se lembrava que havia passado por sua cabeça a possibilidade de eles usarem o corpo da mãe como alimento; foi a única vez que seu pai quebrou a lei do silêncio absoluto que tinha imposto à família, dando um tapa na cara de seu primogênito, e xingando-o dos piores nomes possíveis (sendo shmuck o mais simpático deles). Samuel foi obrigado a ouvir que não fazia nada, a não ser pensar naquelas ilusões numéricas de datas perfeitas; o pai não falava alto – os judeus europeus tinham se acostumado há muito tempo a só falar por sussurros – mas mesmo assim, um dos socos que deu no filho o levou ao chão, fazendo com que um dos vidros de compotas caísse da prateleira e se espatifasse no chão. Um soldado nazista, que tinha vindo à loja comprar conservas para sua namorada, ouviu o barulho e veio inspecionar o porão; Samuel, seu pai e as irmãs se esconderam debaixo de caixotes fedorentos de lixo.
Depois que o soldado nazista tinha se convencido que no porão só havia lixo e que o barulho que ouvira devia ser algum rato (na verdade, o soldado tinha ficado com nojo de sujar suas botas brilhantes no chão coalhado de picles velhos e fedorentos) o dono da loja de picles desceu ao porão para falar com a família. Gritou e esbravejou, dizendo que estava correndo um imenso risco ao esconder a família no porão; ameaçou jogar a família na rua, se fizessem mais barulho. Só aceitara escondê-los ali por dinheiro; para isso, recebera todas as economias que o pai de Samuel tinha guardado durante vinte anos para pegar um navio para a América. Era muito arriscado, e o pai de Samuel sabia o quanto era importante que eles ficassem calados, sem que ninguém soubesse que estavam ali. Algumas vezes, eles ouviam o rádio no andar de cima, e nas poucas vezes em que o dono da loja de picles deixava de ouvir as rádios de propaganda nazista para sintonizar a BBC, o pai conseguiu entender que os Aliados estavam a caminho. Era a sua última esperança. As meninas, Sara e Sofia, não conseguiam mais chorar. Sofia não falava havia quatro anos e quatro meses; a última palavra que tinha dito era “medo” ao ouvir o passo forte e ritmado das botas dos soldados nazistas lá fora, na rua. Sara às vezes a colocava no colo e lhe contava histórias, bem baixinho. Era a sua maneira de também ter esperança, dando à irmã um fiapo de ficção a que se agarrar, em meio a toda a miséria em que se encontravam. Samuel também tinha esperança; mas toda ela estava depositada na capicua, no momento exato da confluência de vários números 4, quando ele e a família poderiam escapar, viajando pelo tempo até um lugar menos impiedoso, uma época menos miserável, onde poderiam andar na rua sem ter que ostentar uma estrela de David azul no braço. Onde não teriam que aturar as cusparadas de outros enquanto andavam pela rua; onde teriam pão e mel em abundância, onde iriam para a escola, onde não seriam discriminados apenas por não comerem carne de porco e por não se ajoelharem diante de uma estátua de um homem pregado numa cruz.
Agora Samuel esperava o momento exato. Olhava para a parede, e mentalizava a sua saída daquele inferno. Os tijolos começaram a adquirir uma cor translúcida, até sumirem. Uma névoa ocupou o lugar onde os tijolos estavam. O pai de Samuel se aproximou por trás dele, finalmente acreditando na quimera do filho. Do outro lado, começaram a ver uma sala, com móveis requintados, e uma cadeira de balanço onde se sentava uma pessoa; a neblina foi se desfazendo, e perceberam que na cadeira se sentava uma velhinha, com os olhos fixos neles. Samuel ria, com lágrimas nos olhos, enxergando no rosto do pai o arrependimento por não ter acreditado no filho. Sara e Sofia estavam boquiabertas, sem acreditar no que viam. Sofia olhou nos olhos da velha do outro lado da parede; algo naqueles olhos a fizeram estremecer; sentiu um medo, um frio em todo o seu ser, e quando a velha se levantou e caminhou para o porão, Sofia não suportou mais: por mais que ela sentisse que não devia, que aquilo era contra tudo o que tinham feito até então, a menina abriu a boca e pela primeira vez em quatro anos e quatro meses, soltou um som, gritando com toda a força de seus pulmões.
Lá fora, soldados nazistas ouviram o barulho, e sem ouvir as desculpas esfarrapadas do dono da loja de picles, entraram no porão atirando. Samuel foi o primeiro a ser atingido, tentando proteger o pai; Sara caiu por cima de Sofia, que por instinto, ficou calada por baixo do corpo da irmã. Os soldados depois a encontraram, e levaram-na para Auschwitz, de onde só sairia ao final da guerra, para se casar no outro lado do Atlântico, em Nova York.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 08h50
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Nova York, 04/04/04.
O relógio digital marcava 4 horas e 3 minutos da madrugada. Sofia apertava o xale contra os ombros, indo para frente e para trás na cadeira de balanço. Durante anos, tinha se preparado para aquele momento. Fora por sua culpa que Samuel não tinha conseguido escapar. Se ela pudesse pelo menos ajudá-lo por um só instante…
Concentrou-se no que tinha que fazer. Abriu os vidros de picles que tinha comprado há algumas semanas. O cheiro invadiu a sala, e ela se sentiu de novo no porão da Kalverstraat Street. A parede de sua cobertura começou a se esfumaçar, como a parede do porão de 60 anos atrás. Do outro lado, através da névoa, ela podia divisar Samuel, o pai, e as duas meninas ao fundo. Sem pensar duas vezes, sentindo a dor da artrite como agulhas entrando por todo o seu corpo, ela se levantou e correu, o mais rápido que pôde. Samuel, ainda rindo, foi puxado por ela para dentro da sala. A velha tentou empurrar também o pai, mas ela não tinha tanta força; abobado com a situação, o pai olhava para o rosto de Sofia, reconhecendo-a de algum lugar… A pequena menina no colo de Sara começou a gritar, e a velha a tomou dos braços da irmã, dizendo:
- Corra para lá dentro!
Foi tarde demais. Os soldados entraram atirando de novo, desta vez matando a todos que estavam do lado de cá do porão. Do outro lado da parede, que se fechava, no quadragésimo quarto andar de um edifício de luxo em Nova York, Samuel chorava, sem saber onde estava, sujando o imaculado tapete felpudo e branco com seus pés imundos, ainda sentindo o cheiro dos vidros de compotas de picles em cima da mesa ao lado da cadeira de balanço. Do outro lado, no porão da Kalverstraat, jaziam quatro cadáveres: o corpo do pai, de Sara, e de uma velha abraçada a uma garota, ambas com cordões de ouro ao pescoço indicando o mesmo nome: Sofia Davidovitz. Foram enterrados em uma só cova, quatro corpos abraçados e nus, enquanto um grito pavoroso inundava o 44º andar de um edifício em Nova York, sessenta anos depois.
por Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 08h49
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coluna AMERICANA
Leve como a chuva

- Vamos tomar banho de chuva com o Bernardo?
- Tá louca? O Bernardo vive gripando!
Leila segurou um palavrão. Não era a primeira vez que Saulo a reprimia em frente a outras pessoas de sua família, com relação ao filho de ambos.
- Mas tá fazendo o maior calor!
- Vamo pra chuva, mamãe!
- Não senhor! Tá pensando o quê? Nada disso, comigo aqui não.
- Mas Saulo, faz bem… é a água do céu, eu sempre tomava banho de chuva quando eu era criança, e nem por isso tive nada!
- Mas o Bernardo não é assim! Você não vai levar ele pra chuva, E ESTÁ ACABADO!
Leila detestava quando o marido ficava daquele jeito, superprotegendo o filho. Nestes momentos, sentia que ambos trocavam de papéis: Saulo virava a fêmea ranzinza e ela era o macho destemido, que queria fazer o filho experimentar tudo o que a vida podia oferecer. Isto incluía banhos de chuva, uma paixão sua desde a infância. Também, ela era do elemento água, enquanto Saulo não podia ser mais terra, pé no chão. Bem que Meg, sua taróloga particular, tinha avisado: o Saulo era Terra ferrado, nunca ia funcionar com ela, que era fluida, leve, e não se apegava a nada – como a água.
A mesma água que agora caía pelos olhos de Leila. Ela sentia que a briga era um pequeno exemplo de como sua vida seria nos próximos anos. Fora Bernardo, que é que Saulo tinha lhe dado? Nada. Saulo não se entregava, não se dava, não queria saber se ela estava bem – queria apenas proteger, guardar o que era seu dentro de uma redoma. Primeiro tinha sido ela – não podia olhar para outros homens, sair com as amigas, beber, se descontrair, que logo o companheiro vinha dizer que ela estava falando alto, que ela estava se exibindo demais, que sua roupa chamava muita atenção, e sabe lá mais o quê. Com o nascimento de Bernardo, Saulo tinha dado uma folga a ela, para cobrir o filho de carinhos e cuidados extremos. Bernardo nunca tinha posto o pé nu no chão, por exemplo. Saulo nunca tinha deixado.
Mas agora ela se revoltava.
- Chega, Saulo. Eu vou levar o meu filho para a chuva sim.
- Não vai, não! Por que senão eu…
- Senão você o quê? Vai me matar, tirar ele de mim? Não se faz isso com uma mãe, nenhum juiz tira o filho de uma mãe.
- Do que você está falando?
- Do nosso divórcio.
- Mas a gente nunca falou disso!, disse Saulo, com uma nota de desespero na voz. Mais do que ser contrariado, ele detestava passar vergonha na frente de qualquer pessoa, principalmente sua esnobe família.
- Eu estou falando agora. Vamos Bernardo, vem pra chuva.
Bernardo, calado, se encostou à mãe, olhando para o pai, e pressentindo a importância do momento. Leila pegou sua mão e caminhou com ele pela chuva, sentindo que as gotas se misturavam com suas lágrimas. Leila era assim, leve como a chuva, rápida como a enxurrada. Água, para sempre água…
por Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 01h16
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coluna AMERICANA
Pecado

A maçã estava na boca de Daniela. A casca vermelha sumia sob a ação dos seus dentes perolados.
Carlinhos suava. Já tinha ouvido falar da maçã de Adão e Eva, mas nunca entendia como aquela fruta tão inocente podia assumir um sentido tão forte como na história. Agora entendia. Na boca de Daniela, a maçã parecia mais apetitosa, mais gostosa, dava mais fome.
- Quer um pedaço, Carlinhos?
- Não, obrigado.
O menino mexeu as mãos, mas logo se arrependeu. Agora que tinha se mexido, não sabia o que fazer com elas. Aliás, aos treze anos, parecia que suas mãos e seus braços não faziam mais parte dele. Seus amigos da escola chamavam-no de "boneco de Olinda", por causa de seus braços que pareciam não ter ligação com o corpo, soltos, que viviam esbarrando em tudo. Ah, os treze anos, leitor...
Daniela parecia inatingível para Carlinhos. Ela vinha dar aula de inglês a ele, reforço de escola. Carlinhos falava inglês bem, até bem demais; apenas fingia ir mal na escola para ter aulas com Daniela. Estavam numa pausa dos estudos. Logo a maçã de Daniela se resumia a um cabinho.
- Vamos voltar pro inglês, Carlinhos... repete comigo: I like to study...
Carlinhos errava apenas para ouvi-la falar de novo. Não ouvia as palavras ou seu sentido... Apenas pensava em como fazer para beijar os lábios de Daniela. Em sua cabeça, construía e reconstruía a cena: num intervalo entre as palavras, exatamente quando a boca de Daniela fazia o som macio do th, como em teeth, ele imaginava surpreendendo-a num beijo molhado como os do cinema...
Hoje, Daniela estava mais bela do que nunca... talvez fossem os olhos de Carlinhos, mas ela lhe parecia ainda mais irresistível. Num momento em que ela dizia a palavra nonetheless, - todas aquelas vogais e sibilantes - Carlinhos não aguentou... colou sua boca na de Daniela. Mas a fome de beijos se revelou demais, e ele chocou seu dente no dela. A dor de Carlinhos - física e moral - foi intensa. Saiu correndo da sala, nem ouviu a mãe que perguntava a ele por que aquela correria toda. Saiu com a bicicleta, correndo como um louco. Nunca mais voltaria para casa. Que vergonha, que vergonha, que idiota! Dar um beijo e quebrar o dente da moça! Estúpido, estúpido, estúpido!
Quatro horas depois, mais calmo, ele voltava para casa, cansado, e prometendo a si mesmo enfrentar a fúria da mãe. Já imaginava ela falando: "Como é que você foi fazer isso com a professora de Inglês, seu tarado!!
Mas ao chegar em casa, a mãe não deu sinais de estar com raiva. Pelo contrário.
- A Daniela disse que liberou você da aula e que repõe outro dia... Mas não precisava ficar esse tempo todo fora de casa, Carlinhos... Você um dia ainda vai ser atropelado com essa bicicleta.
Carlinhos estranhou, foi pegar o material de estudo de inglês na sala de estar. Ao abrir o caderno, deu com o recado de Daniela:
"Até que enfim você tomou uma atitude... Não aguentava mais esperar. Mas você foi com muita sede ao pote. Precisa de alguém que lhe ensine as coisas. Espere pela próxima aula..."
E desde esse dia, o garoto não permitiu que lhe chamassem mais Carlinhos. Já era homem.
por Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 18h48
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coluna AMERICANA
O primeiro vermelho a gente nunca esquece

Andreia não conseguia acreditar no que estava vendo. O líquido viscoso que ela não sabia o que era e lhe descia pela perna abaixo não era xixi, como ela imaginava; era vermelho e viscoso. Sua primeira reação foi gritar, depois perdeu o fôlego e começou a chorar, sem conseguir emitir um só som. Por fim, se ajoelhou e o frio do azulejo do banheiro a tirou de seu ataque de asma. Começou a gritar.
Clarinha foi a primeira a chegar; aos cinco anos, a princípio sem entender o que estava acontecendo. Tia Malu não resistiu e mandou logo: “Eu falei que essa menina já tinha que tá usando óbês, gente”. E lá foi Elisete para o banheiro, explicar para Andreia a primeira menstruação.
Clarinha ficou lá o tempo todo. Não adiantava nada Tia Malu e Elisete falarem pra ela que a prima Marielle Cristina estava casando sem ela ver. “Não quero nem saber” retorquiu a menina, tomando Tang de Morango, “ela chamou a boba da Stefani pra dama de honra, não tô nem aí.” Sílvia, mãe de Clara, não conseguiu reprimir o riso de cumplicidade com a filha; a declaração de Clara lhe deu alívio… Porque Sílvia também odiava Marielle Cristina e seu “rei na barriga”. Só a aturava até hoje por causa de seu irmão Cleverson. Mas o “caso Dama de Honra” tinha sido a gota d’água.
Vinte minutos depois, Andreia estava melhor; depois de chorar muito no ombro da mãe Elisete, já tinha se acostumado com a ideia de ter que fazer o que era necessário: durante uma semana por mês, usar um obês, como dizia Tia Malu. Elizete preferia que a filha experimentasse o que ela usava, daqueles normais mesmo. Tia Malu não quis dizer que não sabia. “Falei obês porque é o que eu uso, mas pode ser esse tipo módêz aí”, e foi deitar no sofá magoada, como se a escolha do tipo de absorvente íntimo fosse a mais importante da vida.
Clarinha é que ficava quieta, só ouvindo tudo. As outras não se importavam de falar muito na sua frente, porque achavam que ela não entendia direito o que estava acontecendo. Pediu para a mãe passar um pouco do seu batom vermelho nos lábios. Sílvia fez a vontade da menina.
Ao final, todas voltaram para a festa, e se esqueceram do assunto, até que Clarinha subiu até a orquestra e pediu para falar no microfone.
- Eu tô aqui pra falar que a Andreia teve a mêstruação.
Riso geral no salão. Sílvia não sabia onde enfiar a cara, mas acabou rindo.
- Menina! Onde você aprende essas coisas?
- Ah, mãe, onde… no Canal de Saúde.
- O que essa menina anda vendo…
- Daqui a pouco tá no ponto de casar, brincou Elizete. Clara fechou a cara ainda mais:
- Eu não. Vou só ser mãe solteira. Homem dá muito trabalho.
No salão, algumas mulheres aplaudiram a resposta. Algumas foram cutucadas pelos maridos com energia.
Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 00h50
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