Otávio e Elvira, simultaneamente
A cidade em pânico. As pessoas gritando desenfreadamente: O PCC TOMOU CONTA DE TUDO. Carros na contramão, motoboys barbarizando mais que o comum. Trânsito infernal. O caos. Parecia que o Godizila iria sair de trás do prédio do Cesar Park, no meio da Vila Olímpia, e devorar meia dúzia de uma só vez.
Boataria geral: “Seqüestraram um avião da TAM e vão jogá-lo em cima do Palácio do Governo”. Agora bandido também é kamikaze. Daqui a pouco serão homens-bomba - tudo em nome “das causa, mano”.
Pelas ruas mulheres chorando - com cara que nunca mais iriam assistir à novela das oito. Alguns, ainda incrédulos, duvidando se realmente tudo aquilo que estava acontecendo era verdade. Enfim, todo mundo em estado de terror – só porque deu dor de barriga no tal do Marcola.
Naquele momento, em toda a cidade, só Otávio e Elvira é que viviam em uma outra realidade. Ou melhor, cada um vivia sua própria realidade.
A bem da verdade Otávio também estava apavorado. Elvira não: tinha nos olhos a mesma confiança que uma menininha de seis anos tem no pai, quando lhe dá a mão para atravessar a rua em direção ao parque de diversões.
Nos olhos de Otávio o pavor de quem está decido a fazer algo que, irremediavelmente, não terá mais volta.
Amantes a mais de três anos. Para ele, a única emoção que tinha sobrado desse enlace era o coração saindo pela boca quando chegava a sua casa um pouco mais tarde e passava pela sabatina da esposa. Isso quando não era averiguação mesmo - além de dar aquela “cheirada” geral, checava o peso dos escrotos do marido, para ter certeza de que ele não havia deixado nada por aí (leu isso numa dessas revistas femininas).
Para Elvira, que já havia investido três anos de sua vida em um relacionamento (agora morno, quase frio) com um homem casado, só restava contabilizar o prejuízo do tempo perdido – queria ter filhos e já estava com quase quarenta – ou resolver de vez aquela situação. Vivia ameaçando: “- Otávio Augusto, eu vou pegar o telefone, ligar para ela e contar tudo sobre nós. Seu rato. Você não tem coragem de me assumir. Otávio, são três anos de promessas e de espera. Três anos não são três dias. Otávio, definitivamente: você é um covarde.”
Quando surgiu o caos a idéia foi simultânea: “Vou matá-la”. Álibi é o que não faltaria: PCC, tiroteio, bala perdida, vandalismo, assalto a mão armada, confusão, tragédia. Muitas possibilidades. Perfeito.
Otávio, dessa vez e como nunca havia sido, foi contundente: “- Elvira, escuta. Hoje é o dia derradeiro. Presta atenção, Elvira. Hoje acabamos de uma vez com isso.” Disse que, juntos, contariam tudo a sua esposa. Combinou encontrar com Elvira em um lugar próximo a sua própria casa. Tramou: “– Toque de recolher. Ninguém na rua. Noite. Quando ela estacionar o carro dou um tiro a queima-roupa.”
Elvira também tinha seus planos: “- Duvido que ele conte. Canalha. Covarde. Não tem coragem. Não agüento mais. Hoje é o dia, sim. Mas vou resolver isso do meu jeito”.
Otávio estava lá, na hora e local combinados quando toca o celular: “- Otávio, estou em frente a sua casa te esperaaaandoooo”. Otávio atônito: “- Elvira, pelo amor de Deus, não faça nada até eu chegar aí”.
Tarde demais. Ding-dong. Toca a campainha. Anália, mulher de Otávio, só teve tempo de dizer “Pois, não? O que desejaaahhhhh”. Caída, com um tiro no peito, ainda pode ouvir as palavras perfurantes de Elvira: “- Eu sei que ele não vale nada, mas agora é só meu. Só meu. Você compreende? Nunca mais terei que dividi-lo com você. Nunca mais”.
A poucos metros dali, Otávio pôde escutar o disparo. Chegou com a arma já em punho. Olharam-se fixamente nos olhos. As armas apontadas, mirando um ao outro, cada qual com o dedo no gatilho. Aproximaram-se. E, por um instante, profundamente, perceberam que nada mais os unia. Duplo disparo. Caídos, morreram olhando um ao outro. Simultaneamente, tingidos em vermelho.
por Gilberto Longo