coluna AMERICANA
O primeiro vermelho a gente nunca esquece

Andreia não conseguia acreditar no que estava vendo. O líquido viscoso que ela não sabia o que era e lhe descia pela perna abaixo não era xixi, como ela imaginava; era vermelho e viscoso. Sua primeira reação foi gritar, depois perdeu o fôlego e começou a chorar, sem conseguir emitir um só som. Por fim, se ajoelhou e o frio do azulejo do banheiro a tirou de seu ataque de asma. Começou a gritar.
Clarinha foi a primeira a chegar; aos cinco anos, a princípio sem entender o que estava acontecendo. Tia Malu não resistiu e mandou logo: “Eu falei que essa menina já tinha que tá usando óbês, gente”. E lá foi Elisete para o banheiro, explicar para Andreia a primeira menstruação.
Clarinha ficou lá o tempo todo. Não adiantava nada Tia Malu e Elisete falarem pra ela que a prima Marielle Cristina estava casando sem ela ver. “Não quero nem saber” retorquiu a menina, tomando Tang de Morango, “ela chamou a boba da Stefani pra dama de honra, não tô nem aí.” Sílvia, mãe de Clara, não conseguiu reprimir o riso de cumplicidade com a filha; a declaração de Clara lhe deu alívio… Porque Sílvia também odiava Marielle Cristina e seu “rei na barriga”. Só a aturava até hoje por causa de seu irmão Cleverson. Mas o “caso Dama de Honra” tinha sido a gota d’água.
Vinte minutos depois, Andreia estava melhor; depois de chorar muito no ombro da mãe Elisete, já tinha se acostumado com a ideia de ter que fazer o que era necessário: durante uma semana por mês, usar um obês, como dizia Tia Malu. Elizete preferia que a filha experimentasse o que ela usava, daqueles normais mesmo. Tia Malu não quis dizer que não sabia. “Falei obês porque é o que eu uso, mas pode ser esse tipo módêz aí”, e foi deitar no sofá magoada, como se a escolha do tipo de absorvente íntimo fosse a mais importante da vida.
Clarinha é que ficava quieta, só ouvindo tudo. As outras não se importavam de falar muito na sua frente, porque achavam que ela não entendia direito o que estava acontecendo. Pediu para a mãe passar um pouco do seu batom vermelho nos lábios. Sílvia fez a vontade da menina.
Ao final, todas voltaram para a festa, e se esqueceram do assunto, até que Clarinha subiu até a orquestra e pediu para falar no microfone.
- Eu tô aqui pra falar que a Andreia teve a mêstruação.
Riso geral no salão. Sílvia não sabia onde enfiar a cara, mas acabou rindo.
- Menina! Onde você aprende essas coisas?
- Ah, mãe, onde… no Canal de Saúde.
- O que essa menina anda vendo…
- Daqui a pouco tá no ponto de casar, brincou Elizete. Clara fechou a cara ainda mais:
- Eu não. Vou só ser mãe solteira. Homem dá muito trabalho.
No salão, algumas mulheres aplaudiram a resposta. Algumas foram cutucadas pelos maridos com energia.
Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 00h50



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