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coluna AMERICANA

Pecado

 
A maçã estava na boca de Daniela. A casca vermelha sumia sob a ação dos seus dentes perolados.
Carlinhos suava. Já tinha ouvido falar da maçã de Adão e Eva, mas nunca entendia como aquela fruta tão inocente podia assumir um sentido tão forte como na história. Agora entendia. Na boca de Daniela, a maçã parecia mais apetitosa, mais gostosa, dava mais fome.
 
- Quer um pedaço, Carlinhos?
- Não, obrigado.
 
O menino mexeu as mãos, mas logo se arrependeu. Agora que tinha se mexido, não sabia o que fazer com elas. Aliás, aos treze anos, parecia que suas mãos e seus braços não faziam mais parte dele. Seus amigos da escola chamavam-no de "boneco de Olinda", por causa de seus braços que pareciam não ter ligação com o corpo, soltos, que viviam esbarrando em tudo. Ah, os treze anos, leitor...
Daniela parecia inatingível para Carlinhos. Ela vinha dar aula de inglês a ele, reforço de escola. Carlinhos falava inglês bem, até bem demais; apenas fingia ir mal na escola para ter aulas com Daniela. Estavam numa pausa dos estudos. Logo a maçã de Daniela se resumia a um cabinho.
 
- Vamos voltar pro inglês, Carlinhos... repete comigo: I like to study...
 
Carlinhos errava apenas para ouvi-la falar de novo. Não ouvia as palavras ou seu sentido... Apenas pensava em como fazer para beijar os lábios de Daniela. Em sua cabeça, construía e reconstruía a cena: num intervalo entre as palavras, exatamente quando a boca de Daniela fazia o som macio do th, como em teeth, ele imaginava surpreendendo-a num beijo molhado como os do cinema...
Hoje, Daniela estava mais bela do que nunca... talvez fossem os olhos de Carlinhos, mas ela lhe parecia ainda mais irresistível. Num momento em que ela dizia a palavra nonetheless, - todas aquelas vogais e sibilantes - Carlinhos não aguentou... colou sua boca na de Daniela. Mas a fome de beijos se revelou demais, e ele chocou seu dente no dela. A dor de Carlinhos - física e moral - foi intensa. Saiu correndo da sala, nem ouviu a mãe que perguntava a ele por que aquela correria toda. Saiu com a bicicleta, correndo como um louco. Nunca mais voltaria para casa. Que vergonha, que vergonha, que idiota! Dar um beijo e quebrar o dente da moça! Estúpido, estúpido, estúpido!
 
Quatro horas depois, mais calmo, ele voltava para casa, cansado, e prometendo a si mesmo enfrentar a fúria da mãe. Já imaginava ela falando: "Como é que você foi fazer isso com a professora de Inglês, seu tarado!!
Mas ao chegar em casa, a mãe não deu sinais de estar com raiva. Pelo contrário.
 
- A Daniela disse que liberou você da aula e que repõe outro dia... Mas não precisava ficar esse tempo todo fora de casa, Carlinhos... Você um dia ainda vai ser atropelado com essa bicicleta.
 
Carlinhos estranhou, foi pegar o material de estudo de inglês na sala de estar. Ao abrir o caderno, deu com o recado de Daniela:
"Até que enfim você tomou uma atitude... Não aguentava mais esperar. Mas você foi com muita sede ao pote. Precisa de alguém que lhe ensine as coisas. Espere pela próxima aula..."
 
E desde esse dia, o garoto não permitiu que lhe chamassem mais Carlinhos. Já era homem.

por Fernando Américo



Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 18h48
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coluna A VAGA SAGA DE ZAGO

O beduíno

 

 

- “Sensualidade?”

 

“Ghibli”, vento quente e seco do Norte da África.

 

Sopra do deserto para o litoral.

 

Causa uma gigantesca tempestade de desejos.

 

Fica rolando e rolando dentro da cabeça.

 

Violentamente bagunça o lugar das sensações.

 

A pele fica quente como a barriga.

 

Já a barriga esfria com o ar que entra pelas narinas.

 

E as narinas, totalmente sem ar.

 

A boca seca.

 

O molhado da língua vai para o meio das pernas.

 

Amolece os braços e endurece o bico dos seios.

 

Frações de segundos, mas o tempo pára por um longo tempo.

 

 

por Vanessa Zago



Escrito por Menu do Texto às 12h41
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coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS

O cair da venda

 

 

Quanto dos teus olhos,

tem o olhar que te desejou ?

Quanto dos teus lábios,

tem o beijo que te conquistou ?

 

A língua, o beijo, a palavra,

Par constante com a volúpia.

Não me compare a luxúria,

sou rara e comum como o amor

 

O cair da venda, o abrir dos olhos,

A libertação, a descoberta, a evolução.

O desfile da mão experiente sobre o corpo nu

A sensualidade de cada centímetro explorado

E o previsível encontro de pés.

 

Pele, suor, gosto, sangue,

A lubricidade é minha amante

Por Ela a mentira, a traição, a morte,

Se abriga constante no fundo,

Bem lá no fundo do meu coração.

por Alice Betânia



Categoria: Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 17h10
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coluna ANDALUZA

Sensualidade Plena 

Sabiam apenas as palavras um do outro.

Os olhos entrelaçaram-se, congelaram no tempo, raiou uma faísca.  Um olhava penetrante, o outro firmava-se no desejo. Nem se pronunciou palavra; só se prenunciou sorriso. 

O silêncio os obrigava a gestos eloqüentes. Estavam conscientes do seu sentir, expostos em todo o seu ser.  Sensibilidade crescente.  Sensualidade plena. A beleza atraente dos sentidos.  Sensação etérea e majestosa.

Mantinham-se sós em meio a muitos.

Tanto queriam dizer, mas de forma enigmática permaneceram calados, como se as palavras pudessem quebrar a fluidez do encanto. Olhos a desvendar cada vão do corpo, cada lampejo da alma, cada desejo oculto.

Compreenderam-se.

Eram belos e jovens um para o outro, apesar de todas as suas décadas. Juntos tinham mais de século. Mas já nada lhes importava.  Uma paixão secular, vivenciada através das eras.

Reencontraram-se.

Mergulharam em si e deram-se a saber.  Tudo tornou-se imenso. Tudo tornou-se intenso. Tudo tornou-se insano.

A língua passeou úmida pelos lábios e as mãos reuniram-se num pouso suave. Sustentaram um ao outro.  Uma elipse de tempo que não se contaria nos dedos, num turbilhão de sentimentos e sensações.

Um abraço lânguido, agradecido. Profundo encontro de carnes insolentes e de espíritos vibrantes. O tremor da tentação.

Como se as gotas de uma imaginária chuva de verão escorressem ligeiras pela pele macia, arrepiando os mamilos de exuberante feminilidade, entregaram-se ao prazer do toque, máximo deleite, ouvindo-se apenas um gemido abafado junto ao peito másculo.

Por um instante eterno pertenceram um ao outro. Fizeram amor na penumbra de suas mentes, sob o signo da sensualidade que os mantinha tesos.

Partiram levando consigo a vívida lembrança de palavras que não foram ditas e de um beijo caliente que apenas pairou no ar.

 

por Cristina Ruiz



Categoria: Cristina Ruiz
Escrito por Menu do Texto às 14h40
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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC

Encanto espontâneo

Nela, o que mais me encanta é o improviso, a maneira como segura a presilha entre os dentes para refazer o rabo de cavalo, a expressão contraída diante de um café muito quente; o riso maroto sob o edredon quando quer ser amada.

Se me lembro, reapaixono.

 

Calcinhas brancas de algodão, a invisível barriguinha do mês, o cabelo molhado depois da ducha. Quem precisa de olhares semi- cerrados de rímel ou lábios contornados de vermelho?

 

A sensualidade previsível é entediante e emburrece os sentidos. Cintas-ligas, rendas pretas, corpetes irrespiráveis, chapinhas para alisar franjas e biquinhos sexies estufados com muito batom – ativada está uma parte quase racional do desejo humano:

__ Ooohh, it´s time to do it!.

E após o gozo, o vazio da identidade no atacado, e a impossibilidade de qualquer conversa a granel:

__ By the way, what´s your name?

 

Lembro do meu avô contar, logo que entrei na adolescência, que se excitava com o cheiro misto de sabão e coentro que tinham as mãos da minha avó e a maneira como ela, durante a lida diária das tarefas de casa, se esforçava para prender uma mecha anelada, que caia solta em seus ombros. Pura espontaneidade, que fazia meu avô redescobrir o céu e os calores do sétimo círculo, numa sensação de vida e prazer irrepetíveis - lembrança quente durante seus anos de viuvez.

 

Pois bem, tenho cá pra mim que não existe sensualidade longe do espontâneo. Encanto recriável em laboratório não é alquimia, é alopatia genérica. Na correria em que nossas vidas se tornaram, acabamos por aceitar toda uma simbologia estéril, seja estética, seja sensual. Exercitamos nosso desejo diante de figuras totalmente clonadas umas nas outras, e a razão para isso não pode ser outra: medo. Pois sim, medo de – assim como meu avô – terminarmos reféns de uma química irrepetível; dependentes de um medicamento que não comportará substituições, e certamente deixará nosso coração adoentado para sempre, até o dia do Grande Reencontro.

 

Leonardo de Moraes



Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 11h49
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coluna A VAGA SAGA DE ZAGO

No vermelho

 

 

 

Impossível alguém tão pálido, sem nenhuma cor ter um céu da boca tão vermelho! E ele fala, fala, fala sem parar! Não tem como não notar!

 

Cada hora um assunto, a mãe que cozinha torta de maça com a receita da avó sueca, a filha que está apaixonada pelo vizinho da melhor amiga, o novo lançamento do Red Hot Chillie Peppers e assim vai...

 

E eu aqui com este bocão aberto; com esse barulho que deveria ser proibido por lei, esta máquina, este “Tziiiiiiiiiiiiiiiiiii”, acompanhado do sugador de baba que me deixa completamente débil.

 

Tudo parece uma batida techno: a voz sempre no mesmo volume e ritmo fazendo o fundo. De tempos em tempos vem o terrível “Tziiiiiiiiiiiii” e a sugada “Eslure, eslure”.... e por aí vai....

 

Achei que fosse só uma limpeza de dentes e já estou aqui me retorcendo há uma hora e meia! Dá limpeza apareceu um buraco. Do buraco uma cárie. E da cárie um canal. E de lá o que estará por vir?

 

Fala a verdade Dr. Marcondes, o que o senhor queria mesmo era alguém para te escutar! Ficar aqui, paradinha, indefesa só olhando o seu céu da boca e concordando com tudo, afinal quem manda aqui é você!

 

Opa! Algum sinal de que estamos prestes a voltar ao normal. Pôs de lado o aparelho, desligou o sugador, parou de falar...me estendeu um novo guardanapo, pegou o papel com o desenho dos dentes e uma caneta...está fazendo várias anotações...

 

Ele vai falar alguma coisa, abriu...e eu vejo! Vejo estampado naquele céu da boca vermelho a minha conta do banco, que vai ficar bem no vermelho! Vamos lá Dr. Marcondes...fala mais....

 

Vanessa Zago



Escrito por Menu do Texto às 11h45
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