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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC
A prisão de um número

Ele tinha parado de tomar seus remédios por conta própria. Acreditava, sinceramente, que as tais químicas haviam matado o melhor dentro de si. Não conseguia mais criar, nem ver as estranhas associações entre sua existência e os quatro cantos do mundo que, melodiosos, invadiam sua cabeça com sinfonias de imagens e letras.
A duras penas, soube que um pouco de sua criatividade era loucura. Mas que a busca da completa sanidade, esta sim seria a maior de suas sandices. Pouco lhe importava se continuaria a pentear as franjas dos tapetes quatro vezes da direita pra esquerda, quatro vezes da esquerda pra direita, desde que pudesse, ainda, sentir o som de anjos lhe invadindo a mente.
Foi uma opção difícil. Em princípio, mulher e filhos ficaram com medo, mas cederam à dura constatação de que não se pode exigir de seu espírito de artista, o equlíbrio da "razão áurea" de Pitágoras. Teriam de se contentar apenas com o número quatro, a obsessão que o perseguia desde criança. Eram quatro as vezes que dizia “bom-dia” ou “boa noite”, verificava as trancas das portas antes de dormir, abria e fechava a geladeira para pegar um simples pote de iogurte. As subidas e descidas das escadas do belo sobrado também eram quádruplas, o que o fez colocar um interfone ao lado do computador, no escritório em que escrevia seus romances e roteiros. Assim, para um simples copo de água, chamava a empregada e evitava a perda de tempo, incontrolável, que o faria suar e suar de forma quase interminável.
Adaptou-se aos seus limites, e o bom-humor para enfrentar o transtorno lhe garantia momentos de esperança:
__Sabe, Seu Antônio, não tem gente que paga aulas de ‘step’ na academias? Então... posso assegurar que estou com o bumbum firme – brincava com o sogro, que revoltado com a decisão da interrupção da medicação, reclamava escondido, sempre que podia, à própria filha.
_ Como vocês podem compactuar com uma coisa dessas?
_ Pai, para com isso. Ele resolveu encarar a doença de frente. O remédio não estava adiantando. Não é sempre que eles funcionam, porque cada um tem uma química cerebral diferente.
_ Química, química, esse moço com quem você casou é um desequilibrado!
_ Pai, não vamos discutir. Está decidido e vou apoiá-lo até quando esse esquema funcionar. Nos últimos dois anos, tomando todos aqueles remédios, ele ficou completamente apático. Teve taquicardias, suador, e tinha perdido completamente a vontade de escrever. E outra: como a gente iria viver? Meu salário de bibliotecária não banca todo esse conforto! Nem a sua pensão de militar! Então, por favor, não vamos mais falar disso.
Sob um misto de resignação e confiança, todos naquela casa se deixaram acostumar com as excentricidades do número quatro. E a vida prosseguiu, demonstrando como o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Até o dia em que, durante o café da manhã, a esposa resolveu comunicar-lhe um fato:
(continua abaixo)
Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 16h18
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2ª parte - continuação
__ Querido, estou grávida.
__ Grávida? Mas já temos dois filhos! Eu, você e os dois, somos em quatro! Quatro, entende?
__ Por favor, se controle... eu não imaginei que... o DIU deslocou, foi o que o meu ginecologista disse e...
__ Como me controlar? Como? Como? Mãos espalmadas sobre a mesa.
O equilíbrio familiar se foi, para talvez nunca mais retornar. Ela arrumou as coisas, levou os filhos embora e o deixou terminando de escrever seu último romance. Temia que fosse forçada, de algum modo, a abortar. Não pelo marido, mas pela maldita doença que flutuava roubando-lhe o amor, a paz e toda a felicidade.
Os meses se passaram, e um exame de ultrassom trouxe outra surpresa: gêmeos.
__ Quatro filhos! Isso, agora temos quatro filhos! Então você não vai ter mais com o que se preocupar, querido! Disse ela, por telefone, após o resultado do exame.
__ Meu amor, volte pra casa. Eu tenho que te mostrar uma coisa.
Quando ela chegou em casa, filhos a tiracolo e malas no bagageiro, encontrou na sala do sobrado a mãe de seu marido, um parapsicólogo e seu companheiro, deitado grogue sobre o sofá.
__ Meninos, subam pro quarto. Depois pegamos nossas coisas. Subam, já!
(continua abaixo)
Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 16h17
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3ª parte - continuação
__ Querida, ele tem se submetido a uma terapia diferente, durante esses quatro meses que você esteve fora. Regressão, já ouviu falar?
__ Claro, claro que sim, Dona Dirce. Mas... e aí?
__ E aí, querida, que descobrimos o porquê de tanto sofrimento. Com a terapia convencional, ele não se lembrava ou, talvez, bloqueasse a memória. Por Deus, eu não sabia que ele tinha presenciado aquilo. Nós achamos que ele tinha ficado mudo, durante alguns meses, pela saudades do pai... eu não sabia que...
__ Presenciado o quê? Do que a senhora está falando, Dona Dirce?
__ Escute você mesma. Eu estive presente nas sessões anteriores, a pedido do parapsicólogo. Logo teu marido vai começar a falar...
Deitado no sofá, ele começou a balbuciar, sob os comandos do profissional.
__ Papai, não, não...
E veio à tona, finalmente, que aos quatro anos de idade, depois de encostar seu quadriciclo no quintal, ele encontrou seu pai na garagem, de costas e arma empunhada contra a própria cabeça.
“Maldito seja você, Deus dos infernos! O que alguém pode fazer com esse tempo? Quatro meses? Quatro? Que droga de tempo é esse? Eu não quero viver, se tiver que ser preso neste número de merda!!!”
A visão da morte do pai garantiu-lhe a mudez durante bons meses. Mas quando voltou a falar, passou a comer cada vez menos. Em seu desespero de mãe, um comentário involuntário lhe coroou o trauma.
“Você não pode ser fraco como o seu pai! Tem de lutar pela vida, não importa como ou o quê ela te apresente! Não seja como o seu pai! Não seja!”
As associações na mente de uma criança vão para destinos desconhecidos. E não ser como o pai significou, inexplicavelmente, suportar a idéia de uma vida preso a um número. O quatro estaria em tudo aquilo que lhe significasse viver, e assim teria sido, até o final dos seus dias.
__ Meu Deus, Dona Dirce... Meu Deus...
As sessões de hipnose prosseguiriam durante mais algum tempo, seguidas por longas sessões de terapia coletiva. Novos medicamentos também seriam testados e dali a poucos meses, seu livro “A prisão de um número” se tornaria referência sobre a luta de um escritor contra a matéria-prima de sua própria genialidade. E o casal de gêmeos, chorando no berço, conseguiria que seu pai corresse apressado para pegar as mamadeiras, num único e simbólico descer e subir de escadas.
por Leonardo de Moraes
obs.: história baseada em narrativa clínica de TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo)
Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 16h13
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coluna LETRA CONVIDADA
Água de beber, camarada

Uma das piores coisas que passei na minha vida foi ter uma sede enorme, descomunal, e não poder beber um copo de água sequer. Explico. Estava grávida, sentia uma sede estúpida, mas a água me dava enjôos. Lembro que neste dia assisti uma entrevista pela TV, de uma atriz brasileira famosa que, de vez em quando, bebericava uma água de aparência refrescante, contida num copo alto e transparente. Oh, céus, quanta tortura para uma pobre grávida!
Isso ficou gravado em minha memória. Deve ser a mesma sensação ruim que têm as pessoas que querem beber água, sentem muita sede, mas ela está inatingível. Outra lembrança difícil: minha mãe já doente, na cama do hospital, sentia sede, mas não podia beber água, por causa da doença. Então eu dava a ela água aos pouquinhos, quase só molhando os lábios secos. Terrível pra mim, mas creio que muito mais pra ela, criada que foi muito ligada a este elemento natural, em meio às minas, das Minas Gerais.
Já sentiu a sensação deliciosa de estar torrando sob o sol e mergulhar numa piscina azulzinha, e ser envolvido aos poucos pelos frescor e molejo da água, que envolve, massageia o corpo e relaxa, afugentando o calor? A relação com a água pode ser assim, suave e tranqüila. Mas como qualquer personagem complexo e contraditório, e por isso mesmo fascinante, a água pode mudar de comportamento e passar de aliada a vilã.
Exemplo. Você decide dar umas braçadas bem na hora em que ela não está a fim e resolve dominar a situação, mostrando sua força e magnitude na forma de ondas gigantescas e armadilhas que arrastam e submergem o infeliz que se arrisca a encará-la. Nestes momentos não há beleza nem encantamento. Apenas o sopro da morte e um não entendimento do porquê ela faz isso com a gente.
Água temperamental, de muitas faces. Água que apodrece e invade ruas e casa na forma de lama fétida e mortal. Água limpa, água que salva, água que faz viver e renascer, que causa conflitos, que sela a paz, que batiza, que embala, que acorda, que limpa, que arrasta, que fertiliza o solo, que desencadeia novos mundos, que separa, que mata a sede. Quantos papéis para um mesmo intérprete, versátil e talentoso. Como algo sem cor e sabor, que tinha tudo para ser sem graça, pode ser tão atraente? Será sempre, e principalmente, água de beber, meu camarada!
por Rose Miranda
Escrito por Menu do Texto às 12h37
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coluna AMERICANA
Leve como a chuva

- Vamos tomar banho de chuva com o Bernardo?
- Tá louca? O Bernardo vive gripando!
Leila segurou um palavrão. Não era a primeira vez que Saulo a reprimia em frente a outras pessoas de sua família, com relação ao filho de ambos.
- Mas tá fazendo o maior calor!
- Vamo pra chuva, mamãe!
- Não senhor! Tá pensando o quê? Nada disso, comigo aqui não.
- Mas Saulo, faz bem… é a água do céu, eu sempre tomava banho de chuva quando eu era criança, e nem por isso tive nada!
- Mas o Bernardo não é assim! Você não vai levar ele pra chuva, E ESTÁ ACABADO!
Leila detestava quando o marido ficava daquele jeito, superprotegendo o filho. Nestes momentos, sentia que ambos trocavam de papéis: Saulo virava a fêmea ranzinza e ela era o macho destemido, que queria fazer o filho experimentar tudo o que a vida podia oferecer. Isto incluía banhos de chuva, uma paixão sua desde a infância. Também, ela era do elemento água, enquanto Saulo não podia ser mais terra, pé no chão. Bem que Meg, sua taróloga particular, tinha avisado: o Saulo era Terra ferrado, nunca ia funcionar com ela, que era fluida, leve, e não se apegava a nada – como a água.
A mesma água que agora caía pelos olhos de Leila. Ela sentia que a briga era um pequeno exemplo de como sua vida seria nos próximos anos. Fora Bernardo, que é que Saulo tinha lhe dado? Nada. Saulo não se entregava, não se dava, não queria saber se ela estava bem – queria apenas proteger, guardar o que era seu dentro de uma redoma. Primeiro tinha sido ela – não podia olhar para outros homens, sair com as amigas, beber, se descontrair, que logo o companheiro vinha dizer que ela estava falando alto, que ela estava se exibindo demais, que sua roupa chamava muita atenção, e sabe lá mais o quê. Com o nascimento de Bernardo, Saulo tinha dado uma folga a ela, para cobrir o filho de carinhos e cuidados extremos. Bernardo nunca tinha posto o pé nu no chão, por exemplo. Saulo nunca tinha deixado.
Mas agora ela se revoltava.
- Chega, Saulo. Eu vou levar o meu filho para a chuva sim.
- Não vai, não! Por que senão eu…
- Senão você o quê? Vai me matar, tirar ele de mim? Não se faz isso com uma mãe, nenhum juiz tira o filho de uma mãe.
- Do que você está falando?
- Do nosso divórcio.
- Mas a gente nunca falou disso!, disse Saulo, com uma nota de desespero na voz. Mais do que ser contrariado, ele detestava passar vergonha na frente de qualquer pessoa, principalmente sua esnobe família.
- Eu estou falando agora. Vamos Bernardo, vem pra chuva.
Bernardo, calado, se encostou à mãe, olhando para o pai, e pressentindo a importância do momento. Leila pegou sua mão e caminhou com ele pela chuva, sentindo que as gotas se misturavam com suas lágrimas. Leila era assim, leve como a chuva, rápida como a enxurrada. Água, para sempre água…
por Fernando Américo
Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 01h16
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coluna A VAGA SAGA DE ZAGO
Religare

Dona Janaina, D. Jaja para os íntimos, é uma senhorinha de 68 anos que sempre deixou suas vontades para depois. Como ela mesma dizia, o dever vem antes do prazer. E seguia assim, trabalhando, trabalhando e trabalhando. Só que naquela manhã ela acordou diferente. Um sonho há muito adormecido veio à tona: “É hoje que faço a minha matrícula!”.
Vira e mexe ela namorava a escola; a vontade vinha e ela ia, a consciência vinha e ela voltava, a vontade vinha e ela ia... Só que dessa vez ela ligou, conversou e se matriculou! Em seguida foi para o quarto buscar o bem guardado kit natação que ganhara de seu filho Marcondes, e começou a se preparar. Maiô posto. Roupão vestido. Havaianas colocadas. Touca de banho e óculos na bolsa. Ela estava preparada para sua primeira aula de natação.
Chegou à escola Blue Water e seguiu em direção à piscina, sentindo-se um tanto quanto desconfortável. O ar era quente e úmido, o aroma espesso, um barulho de fundo de gotas... Quando ia começar a pensar que na verdade deveria voltar a seu trabalho, trabalho e trabalho, sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se e viu o professor. Ele apontou para a piscina sorrindo.
Ela olhou para aquela imensidão azul e colocou um pé. Outro pé. Depois a batata da perna e os joelhos. Deu uma paradinha. E seguiu, barriga, dorso e, graças a Deus, o chão chegou. Então, com todo seu instinto de sobrevivência grudou a barriga na parede da piscina, agarrando às bordas e sentindo o gelado dos azulejos em sua mão. Ficou assim por um certo tempo. Um ligeiro pensamento de que iria atrasar seu tricô passou pela sua cabeça, mas deu uma escorregadinha e ele logo foi embora.
Aí ela foi se “aclimatando” e começou a se mover, claro que sempre grudada na parede da piscina. Ia contando os azulejos: 1... 2... 3. Conforme passava de um azulejo para outro, era como se apertasse um botão que ativava um flash de lembranças que há muito estavam trancadas: 4... o primeiro beijo no portão; 5... quando o filho caiu da bicicleta; 6... aquele Julho em Lindóia...
E assim absorta nas suas memórias mais queridas foi relaxando, sendo abraçada por toda aquela água, todo aquele sonho de aprender a nadar. E começou a sentir-se matriculada consigo mesma.
Por Vanessa Zago
Categoria: Vanessa Zago
Escrito por Menu do Texto às 01h12
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coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS
Água, suor e lágrimas

_ Eu não te amo mais... Você não significa mais nada para mim...
Foram estas palavras ácidas e sem nenhuma compaixão que Glória ganhou de presente de aniversário do homem que intitulou seu marido por mais de meio século.
Apesar de muitas rugas, conseqüência do constante castigo do sol, ela chegara com muita dignidade aos setenta anos. E ele, totalmente absorvido pelo álcool.
Aquelas palavras corroeram de maneira perversa sua alma, causando-lhe um impacto profundo, tirando-lhe o chão. Uma mulher tolerante, esposa dedicada, mãe presente e uma administradora do lar incomparável. Naquele momento encontrava-se de costas lavando a louça do almoço.
Enquanto a água descia torneira abaixo, os insultos continuavam e lentamente nascia nela uma sede de viver.
_ Esta comida está uma droga... Você está ficando velha, não sabe nem mais cozinhar...
Ela continuava muda, o seu silêncio agredia mais que mil palavras ditas de uma única vez. E como agredia. Porque não era um silêncio de resignação, era um silêncio de sabedoria.
“Acho que a cachaça o cegou, caso contrario perceberia que está tão velho quanto eu”, pensava ela, emudecida. “O bom de tudo isso, é que independente de ser mulher ou homem, bonito ou feio, rico ou pobre um Senhor simpático chamado tempo vem para todos em igual proporção”.
Sua vida passou como um filme: o primeiro olhar, a conquista, o casamento, os filhos, os netos, as dificuldades, as decepções, traições, mentiras, e quantas vezes seu corpo exalou sofrimento em suor e lágrima.
A água da torneira continuava a cair num ritmo contínuo, tratando de lavar a louça e leva consigo frustrações, mágoas, todas as más recordações. O contato gelado em suas mãos e o barulho do escoar no ralo a acariciavam. Sentiu sua alma ser lavada e, com a leveza de uma pluma, virou-se em diagonal para responder à altura ao seu agressor, que covardemente já saia do ambiente:
- Mesmo tanto lhe ofereço.
Tirou o avental, secou as mãos e tratou de ir para o quarto fazer as malas. Iria para perto da irmã, aproveitar seu convite. “Venha morar comigo, essa cidade é uma estação de águas, fonte de vida”. Pois bem, no gotejar do dia-a-dia, finalmente a decisão havia sido tomada.
Inodora, incolor, insípida, mas essencial. Foi libertada pelo transbordar da água fria, e renasceria com o magnético calor das estações termais. Esse precioso recurso da terra, com sua força inigualável, a havia libertado da pior prisão que existe. A prisão dentro de si mesma.
por Alice Betânia
Categoria: Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 14h02
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coluna ANDALUZA
Duas lágrimas...

- O que foi dessa vez?
- Ainda não sei.
- Por que ela está assim tão triste?
- Parece que é o de sempre
- Mas isso não pode continuar...
- Não nos cabe evitar...
- Tem mais alguém aí no quarto?
- Não. Ele deve estar lá embaixo.
- Acha que ele a magoou profundamente outra vez?
- Ele sempre a magoa, decididamente.
- Mas por que?
- Quando a paixão vai embora começam as mágoas.
- Por que ele não vai embora também?
- Para vingar diariamente a morte do amor.
- Queria tanto vê-la sorrir.
- É uma questão de tempo. Tudo pode mudar.
- Tudo sempre pode mudar...
- Mas ela tem que querer que tudo mude.
- A nós só resta fazer o nosso papel.
- Aliviar a sua dor...
- Lavar a sua alma.
- Ahhh... Agora a música que ela tanto ama.
- Vai sofrer mais ainda.
- Virão muitas outras depois de nós...
- Talvez seja bom para exorcizar todo o tormento.
- Ou apenas um tempo de renascimento até a próxima mágoa.
- Sufrágio talvez...
E as duas lágrimas se calaram, brilharam nos olhos e rolaram lentamente pela face, como as águas abençoadas de uma chuva vinda do coração.
por Cristina Ruiz
Categoria: Cristina Ruiz
Escrito por Menu do Texto às 09h38
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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC
O amor e a água

Numa das minhas primeira encarnações, logo após ter deixado de me pendurar em árvores pelo rabo, escutei algumas das idéias de meu velho e bom mestre Empédocles (490 a 430 a.c), enquanto lhe servia uma taça de ambrosia.
Nestes idos de togas e louros na cabeça, ele me contou que para construir tudo o que existia na Terra seriam necessários quatro elementos: ar, água, fogo e terra; e que com as diferentes concentrações de cada um destes quatro elementos, as diferentes misturas dariam origem a coisas distintas, como a madeira, o barro, o vapor ou mesmo a rocha. Para equilibrar os ingredientes, tais substâncias estariam sujeitas à ação de dois princípios fundamentais: amor e ódio.
Ele me assegurou que a água, sobretudo, podia ser impregnada pelo amor. Afirmou que eu deveria sempre ter bons pensamentos quando fosse bebê-la em refresco e que, projetando tal princípio em apenas uma única gota, poderia obter a energia necessária para mudar meu interior e o mundo ao meu redor.
Eu fingi entender, num jeitinho de futuro brasileiro que seria. Recolhi-me aos meus aposentos de servo e o máximo que pude concluir de toda aquela história é que talvez o amargos da ambrosia que havia servido (e bebido escondido), deveriam ser por conta dos mau-humores da nova cozinheira, presenteada por um poderoso político de Atenas... Pois bem, na manhã seguinte, eu e meu mestre não amanheceríamos, envenenados que fomos.
Hoje, ao deitar minha cabeça no travesseiro, impossível não pensar justamente que, de todos os elementos do universo, estão a rarear os dois mais importantes: o amor e a água. E que esta continua a ser inescrupulosamente envenenada por maus políticos, a despeito dos melhores pensamentos de qualquer filósofo bem-intencionado.
Por Leonardo de Moraes
Nota de rodapé: Empédocles realmente existiu, e foi precursor de algumas idéias de Aristóteles, que as aprofundou e ampliou. Quanto à sua verdadeira morte, conta a lenda que o filósofo teria perdido sua sanidade, escalando o vulcão Etna e colocando-se de pé diante de sua borda esfumaçante. Bradando aos quatro ventos que era o próprio Deus-vulcão, teria se jogado e morrido imediatamente nas lavas incandescentes. A versão histórica, no entanto, é muito diferente: ele teria morrido à época da Guerra do Peloponeso, assassinado pelos oligarcas, cansados de suas "absurdas" idéias sobre democracia.
Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 14h56
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A dança dos corpos - em três atos.

Primeiro ato - A corte
A ponta do queixo, levemente inclinada, um pouco acima do lugar comum, apoiada pelo olhar fulminante e lascivo indicavam o eleito.
De algodão fino, o vestido vermelho pouca resistência oferecia aos seios, coxas e nádegas exuberantes que se moviam maliciosamente por dentro dele, orquestrados pelo andar perfeito, de passos certeiros e retilíneos.
Cabelos louros, selvagens e simetricamente despenteados, movimentavam-se suavemente sobre seus ombros e costas - como se fossem a própria seda.
Colo, braços e pernas exibiam o brilho dourado e lustroso e a textura macia de sua pele.
Seus lábios - cujo matiz rosa, vertiginosamente exposto, sugeria outros tons de rosa do seu corpo -, em um murmúrio, se movimentaram apenas duas vezes: “- Vamos?”.
Segundo ato - A dança
As palmas de suas mãos se tocaram sublimemente, depois se entrelaçaram com mais intensidade e força.
Seus olhares carregados de desejo e angústia pelo desconhecido, se descruzaram para que suas faces pudessem se juntar.
Mãos firmes persuadiram a substância da carne, rija e pulsante, saltar sutilmente por entre os dedos.
Os corpos, forçados um contra o outro, separavam-se e juntavam-se incessantemente pelos movimentos dos quadris, mantendo sempre o ritmo - ora frenético, ora pausado.
Inebriados pelos olores que emanavam e se misturavam por suas peles úmidas, envoltas em suor e prazer, permitiram-se, deleitaram-se, extasiaram-se.
Estavam entregues, totalmente entregues ao deslumbramento.
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Terceiro ato - O cansaço
Em um rodopio desvencilharam-se. Trêmulos, ofegantes e exaustos seguiram cada um para um lado, estarrecidos a procura de outros corpos para novos atos.
por Gilberto Longo
Escrito por Menu do Texto às 00h25
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