MENU DO TEXTO


coluna LETRA CONVIDADA

Almeida, o poeta

 A vida nunca sorriu para o Almeida, como deveria.

Ao longo dos anos habituou-se a ver nascer o sol, mesmo quando não era possível vê-lo. Habituou-se, também, a não ver a lua e as estrelas, porque o seu ciclo de vida não permitia. Funcionava como uma espécie de galo do vizinho, só que não cantava ao amanhecer. Estava habituado às maiores durezas de uma existência quase miserável, que ele tentava enganar observando e imaginando, observando e imaginando. Apesar dos pesares, o Almeida nunca havia deixado de sonhar.

Enfrentava diariamente a cidade ainda vazia, ruas e calçadas úmidas pelo sereno da noite, e imaginava-se como seu único habitante. No inverno, quando a chuva e o frio insistiam em penetrar a roupa surrada e o obrigavam a forçar a caminhada, ou no verão, quando o ar seco e o sol impiedoso quase lhe cortavam a respiração, ele fazia planos para a sua cidade. Derrubava prédios, construía viadutos e túneis, revitalizava jardins. Construía novas escolas e arrasava os velhos quartéis. Despia de ouro as igrejas centenárias e o distribuía pelos mais pobres. Muitas vezes fingia ser polícia, doutor, político ou apenas, criança. E cada personagem que criava tinha direito a ter nome, uma cara, um olhar. As roupas, eram todas iguais, cor de laranja e fosforescentes como a sua. Achava sabiamente que isso não fazia a diferença, porque as embalagens eram uma das suas especialidades. Novas, quando as observava ainda nas vitrines das lojas, ou usadas, quando as encontrava espalhadas pelo chão. Antes mesmo de tocá-las podia sentir a sua espessura, o seu cheiro e a sua qualidade. Acreditava, isso sim, na maior ou menor utilidade do seu conteúdo. No fundo, decidira há muito tempo que todas elas eram perfeitamente dispensáveis. Era um homem de conteúdos. Até com algum desprezo por todo aquele desperdício, recolhia as embalagens que encontrava e as deitava fora. Fazia isso centenas de vezes todos os dias, quase automaticamente. Tinha aprendido com a vida que elas escondiam a verdade, e que, quase sempre, escondiam aquilo que ele realmente queria ver. Uma vez tinha encontrado uma caixa lindíssima, estampada com a fotografia de uma saladeira em prata e cristal e, curioso, enfiara a mão pela extremidade aberta e quase tivera dois dedos dilacerados pelo corte profundo e impiedoso causado por cacos de uma garrafa quebrada que estavam em seu interior. Afinal, a dor também ensinava, pensava ele.

O Almeida era um observador cuidadoso. Mesmo quando a luz do dia ainda era ténue, seus olhos percorriam cada centímetro do percurso, que fazia diária e automaticamente, como se fossem poderosos scanners. Era capaz de encontrar uma cinta de papel transparente de um maço de cigarro onde nenhum outro ser humano jamais imaginaria ver. Palitos de fósforo usados, para ele, eram pedaços de árvore. Ele trabalhava, observava e sonhava. Uma fralda descartável usada, dobrada em quatro e protegida por papel higiénico era sinal de uma mãe cuidadosa e devotada. Uma fralda usada, aberta e atirada de qualquer jeito, era sinal de pouco caso, pouco amor. Tampinhas de refrigerante e tampinhas de cerveja também tinham as suas histórias, assim como embalagens ou frascos vazios de remédios. E quando não tinham, ele as inventava.

(continua abaixo)



Escrito por Menu do Texto às 11h29
[   ] [ envie esta mensagem ]




parte 2

Era um curioso incontrolável. Entre muros e calçadas já tinha descoberto de tudo. E de tudo que descobria e encontrava, ia fazendo as suas histórias. Um pedaço de carne virava um banquete, um soutien gasto transformava-se numa mulher lindíssima, uma pilha usada no mais desejado equipamento de som, uma gota de sangue num assassinato frio e cruel, uma camisinha usada e pegajosa numa noite de prazer. Só que este seu lado sonhador não o impedia de manter intacto o seu melhor juízo de valor. Quando descobria qualquer coisa que ainda tivesse utilidade, o Almeida separava cuidadosamente, fosse o que fosse, e levava para casa. Depois, na sua solidão habitual que não dormia nunca, ele examinava o troféu e com ar de conhecedor, decretava o passado, examinava o presente e estabelecia o seu futuro. E metodicamente, por critérios que só ele conhecia, encontrava, entre milhares de coisas espalhadas por todos os cantos da casa quase atulhada, o lugar mais adequado para a sua última descoberta. Todos os dias o Almeida colecionava pedaços da vida, uns mais importantes para ele do que outros.

Um dia ele havia encontrado o seu primeiro livro. Estava escrito em inglês, mas mesmo assim guardou-o carinhosamente e encontrou para ele um lugar de destaque numa estante que também havia encontrado uns dias antes. Depois, quase todas as semanas, encontrava outros livros. Na sua maioria eram livros técnicos desatualizados, romances gastos e sebosos e, inexplicavelmente, muitos livros de histórias infantis. Tentava ler o que ia encontrando, mas muitas vezes ficava bloqueado por manchas inexplicáveis, borrões de tinta e páginas rasgadas ou arrancadas, simplesmente. Mais do que todas as outras coisas que encontrava, os livros eram as que mais mexiam com ele. Páginas arrancadas eram como corações extirpados, manchas de tinta viravam verdadeiros crimes contra a humanidade.

Um belo dia, encontrou um livro sem capa e com dezenas de páginas arrancadas e teve a sua atenção voltada para algo que jamais tinha visto. Continha umas histórias meio estranhas, quase irreais. Falava de amores, sonhos e paixões desperdiçadas inutilmente.

(continua abaixo)



Escrito por Menu do Texto às 11h26
[   ] [ envie esta mensagem ]




parte 3

E, ainda por cima, tinha uma forma de escrita engraçada, onde umas palavras combinavam com as outras, proporcionando um ritmo de leitura que parecia ter a cadencia de uma música. De tal forma aquele livro pareceu ser uma coisa especial que se tornou sua leitura preferida, podemos dizer, seu livro de cabeceira. Aos poucos foi decorando trechos daquele monte amarrotado de folhas sujas e gastas, e mesmo sem saber porque, se flagrava de vez em quando, a falar em voz alta os trechos que mais o intrigavam.

 

“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”

 

Lá ia o Almeida, sem conhecer ou saber de Fernando Pessoa, empurrado seu carrinho pela rua quase deserta. Vivendo dos sonhos que não deixam a gente morrer, da sua imaginação, da sua curiosidade e da sua sábia capacidade de reconstruir a vida a partir dos seus mais estranhos dejetos. Acima de tudo, renascendo todos os dias das profundezas das dores que sentia ou que imaginava sentir. Almeida, o poeta.

 

P.S.: Para quem não sabe, Almeida é nome que se dá aos varredores de rua em Lisboa.

 

por Paulo Pinho

 

Paulo Pinho é brasileiro, escritor, dramaturgo, e mora em Portugal há vários anos.



Escrito por Menu do Texto às 11h25
[   ] [ envie esta mensagem ]




coluna LETRA CONVIDADA

Casais amigos. Relações infiéis.

 

Sabe aquela clássica história do triângulo amoroso Bentinho/ Capitu/Escobar, imortalizada por Machado de Assis no romance Dom Casmurro? Ela é tão clássica quanto eterna, porque se repete até hoje, quase sempre emergindo da também clássica amizade entre casais, o que poderíamos chamar de quarteto amoroso.

 

 Qual o casal que nunca teve um outro casal muito próximo, amigo para toda hora, de fazer confidências íntimas, viagens e frequentar a casa com freqüência? Isso é muito comum.

 

Assim que nos casamos, deixamos para trás um mundo de baladas, ficadas e noites em claro e entramos no maravilhoso mundo novo dos casados. Aquelas pessoas mais sérias, que vão pra casa depois do trabalho, dormem em cama de casal, levam as crianças às festinhas de aniversário e, normalmente, têm um casal muito amigo que compactua de tudo isso com eles.

 

Pois é. É desse pessoal mais sério e centrado a que me refiro. E desconfio de que há coisa mais perigosa do que a amizade entre eles. Porque bem lá no fundo, mas lá no fundo mesmo, eles ainda conservam um ranço de solteirice e, hora ou outra, dão bola fora. Explico melhor.

 

Muitos casados ainda não assimilaram o novo papel e, muitas vezes, não desempenham bem o personagem, o que pode ser um desastre para o espetáculo e os outros atores. E isso não sou eu quem digo. Acontece de verdade e tem servido de inspiração para muitos criativos de talento além do Machado. O cinema, por exemplo, vem se servindo fartamente desse tema há anos, porque além de instigante, ele é sempre atual.

 

Mas o que será que atrai alguém para a mulher do próximo, ou ainda, para o marido da próxima? O que leva à troca de casais? Talvez, a curiosidade de conhecer o parceiro do melhor amigo ou amiga, ou talvez porque a gente sempre ache que o que é dos outros, é melhor do que o que é nosso. E daí alguns resolvem provar. Vai saber.

 

O fato é que acontece. E pode acontecer com você. Quem sabe não está acontecendo agora mesmo? Sim, por que se um é pouco, dois pode ser muito bom, três, óbvio, passa da conta e,  quatro, admitamos, é perfeito! Hum, e isso daria um filme e tanto!

 

por Rose Miranda



Escrito por Menu do Texto às 21h56
[   ] [ envie esta mensagem ]




A CURTA coluna DE LONGO

Camisa Quatro

 

 

“-Dario Pereira, Nilton Santos, Luís Pereira e mais um ou outro por aí, pode até ser que fossem iguais, mas melhores do que o Gordo, nunca, jamais”.

Era assim mesmo, que ele, o Gordo, se autodenominava: entre os melhores e imortais quartos-zagueiros de nosso futebol – e como Pelé, sempre fazia referência a si próprio em terceira pessoa.

 

O cara era bom mesmo. Uma unanimidade no peculiar e rico universo do futebol de várzea. Era um beque completo. Tinha visão de jogo de meia-atacante, velocidade de ponta de lança, desarme de volante e astúcia de centroavante. Tudo isso somado aos atributos fundamentais que um zagueiro clássico deve ter: categoria, força, impulsão e senso de colocação dentro da área. O Gordo era assim: carregava consigo as melhores características dos verdadeiros craques de cada uma das posições do jogo.

 

Quando aparecia algum atacante dos bons na sua área, já logo combinava com o goleiro: “- Ó, na hora de sair jogando, põe Ela pingando bem aqui no meio da área. Quando o malandro da nove vier pra cima, já dou logo uma touca, que ele vai ficar uns dois dias procurando passarinho no céu”.

E não tinha jeito, promessa anunciada era promessa cumprida. O Gordo era muito mais cruel do que o beque comum. Ao invés da botinada, sabia que o drible desenhado, humilhante e explícito era a melhor arma para deixar o adversário sem chão, sem rumo na partida.

Feito o lance ainda ganhava o time adversário inteiro: “O que malandro? Aqui na minha área não. Esse pedaço é meu. Se quiser jogar vai lá pra lateral. Lá você joga. Aqui na área ninguém vai conseguir arrumar nada não”. Depois disso o jogo ficava ainda mais fácil para ele – ninguém ousava chegar muito perto.

 

Recurso não lhe faltava. Tinha um arsenal enorme de dribles, malícias e possibilidades.

Por exemplo: quando saia na cobertura do ala na lateral. Ele não ia seco para o desarme. Simplesmente dava o lado do campo ao adversário e acompanhava-o passo a passo. Diminuía o espaço, abria sutilmente os braços, escorando-o e levando-o para a linha lateral do campo. Nessa hora o time inteiro parava porque sabia que a parada já estava resolvida. Não tinha jeito: ou o cara desistia do lance ou daria com a cara no alambrado.

(continua abaixo) 



Escrito por Menu do Texto às 22h11
[   ] [ envie esta mensagem ]




(continuação)

 

Na área, podia estar a muvuca que fosse. Do jeito que a Bola viesse – torta, com efeito, sem peso, ou mesmo um foguete – não tinha problema. Matava Ela com estilo - como se nas pernas tivesse borracha aderente, antiimpacto. Em seguida protegia-A com o corpo, arrumava um espaço e num giro em torno Dela enganava a todos. Puro improviso. Dava um tapa na Menina e saia jogando de fronte erguida, no compasso certo. De peito aberto, cheio de classe, virava o jogo colocando a Bola no pé do lateral, no outro lado do campo.

 

Se alguém cometesse alguma grossura, não importava quem fosse, logo o xerife se impunha, em alto e bom som, para todos ouvirem: “Você maltrata demais da Bola, meu irmão. Não judia assim Dela, não. Pára com isso. Ela não merece esse desacato todo. É por isso que Ela foge de você. É preciso ter intimidade com a Pequena, tratar Ela com carinho. Compreendeu, meu chapa?”.

O Gordo tinha um caso de amor inseparável com a Bola. Ela deslizava pelos seus pés. Nunca lhe traía. Atendia fielmente a todos os seus desejos.

Pouquíssimas vezes - só quando não tinha jeito mesmo, só em último caso, quando a meta protegida corria grave risco – ele dava um bico, que, aliás, jamais assumia: “O que? Bico? Você ta louco? Eu lá sou de dar bico na Bola? Isso é coisa de cabeça de bagre, rapaz. Aqui é o Gordo. Eu bati Nela foi de três dedos”.

 

Sorte dos que viram, ou pelo menos ouviram, as proezas do Gordo, que a essa hora deve estar nos campos do céu, ao lado dos deuses do futebol, revendo partidas imemoráveis que fez com a camisa quatro do Vila Morse. Arrisco dizer que talvez ainda faça os seus comentários. E que sejam mais ou menos assim: “O Gordo joga muito mesmo. Sem modéstia, não deve nada a ninguém mesmo”.

 

por Gilberto Longo



Escrito por Menu do Texto às 22h08
[   ] [ envie esta mensagem ]




coluna AMERICANA

A hora marcada

 

Nova York, 04/04/04.

O relógio digital marcava 4 horas e 2 minutos da madrugada. Sofia apertava o xale contra os ombros, espantando o frio do início de primavera em Nova York, enquanto esperava passar mais um minuto do relógio. Seus ossos doíam; era a artrite que piorava ao menor sinal de frio. Mas ela não se importava; perto do que ela já tinha passado há 60 anos atrás, a dor da artrite podia ser considerada um prazer. Era só se lembrar do frio do porão da fábrica de picles, na Kalverstraat Street, em Amsterdã. Do frio e do cheiro acre dos picles estragados que escondiam a ela e a sua família…

Como um passe de mágica, a dor da artrite ficou mais suportável. Lágrimas vieram aos seus olhos ao se lembrar do irmão Samuel, um pequeno gênio da matemática, sempre obcecado pelo número 4… Na época, ele era o irmão mais velho. Sofia esperava reencontrá-lo agora, mas não sabia se seu plano daria certo. Durante anos ela tinha estudado as capicuas – uma confluência de horas, minutos, segundos, dia, mês e ano, que configuravam uma data perfeita, um palíndromo do tempo, formando um numeral que poderia ser lido de trás para frente, e de frente para trás. Algo como as 11 horas, 11 minutos e 11 segundos do dia 11 de Novembro (11) do ano 1111. Samuel era fascinado com estas datas perfeitas, e acreditava que, se alguém se preparasse muito, poderia aproveitar o exato momento de uma capicua para viajar no tempo e no espaço. Em sua infância, Sofia não acreditava muito nisso; observava com desprezo Samuel fazendo seus cálculos, planejando o que fazer no momento exato da primeira capicua que iriam viver, no dia 04 de Abril de 1944. Naquela época, mal podiam imaginar onde estariam nesta data…

(continua abaixo)



Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 08h50
[   ] [ envie esta mensagem ]




Amsterdam, 04/04/44

O ponteiro maior se aproximava do quarto indicador do relógio de pulso. Em breve seriam 4 horas e 4 minutos. Samuel Davidovitz havia esperado por este momento por quatro longos anos; desde que a Alemanha invadira a Holanda, desde que ele tinha tido que se esconder com o pai e as duas irmãs no porão fétido da loja de picles. Há quatro anos eles não podiam sair, se alimentavam apenas do que era jogado na ante-sala do porão – os picles mais azedos, ou estragados, aqueles que não serviam para comer. A mãe de Samuel já tinha morrido há muito tempo; tinham-na enterrado num dos cantos do porão, sem poder dar a ela um enterro legítimo. Samuel ainda estremecia quando se lembrava que havia passado por sua cabeça a possibilidade de eles usarem o corpo da mãe como alimento; foi a única vez que seu pai quebrou a lei do silêncio absoluto que tinha imposto à família, dando um tapa na cara de seu primogênito, e xingando-o dos piores nomes possíveis (sendo shmuck o mais simpático deles). Samuel foi obrigado a ouvir que não fazia nada, a não ser pensar naquelas ilusões numéricas de datas perfeitas; o pai não falava alto – os judeus europeus tinham se acostumado há muito tempo a só falar por sussurros – mas mesmo assim, um dos socos que deu no filho o levou ao chão, fazendo com que um dos vidros de compotas caísse da prateleira e se espatifasse no chão. Um soldado nazista, que tinha vindo à loja comprar conservas para sua namorada, ouviu o barulho e veio inspecionar o porão; Samuel, seu pai e as irmãs se esconderam debaixo de caixotes fedorentos de lixo.

Depois que o soldado nazista tinha se convencido que no porão só havia lixo e que o barulho que ouvira devia ser algum rato (na verdade, o soldado tinha ficado com nojo de sujar suas botas brilhantes no chão coalhado de picles velhos e fedorentos) o dono da loja de picles desceu ao porão para falar com a família. Gritou e esbravejou, dizendo que estava correndo um imenso risco ao esconder a família no porão; ameaçou jogar a família na rua, se fizessem mais barulho. Só aceitara escondê-los ali por dinheiro; para isso, recebera todas as economias que o pai de Samuel tinha guardado durante vinte anos para pegar um navio para a América. Era muito arriscado, e o pai de Samuel sabia o quanto era importante que eles ficassem calados, sem que ninguém soubesse que estavam ali. Algumas vezes, eles ouviam o rádio no andar de cima, e nas poucas vezes em que o dono da loja de picles deixava de ouvir as rádios de propaganda nazista para sintonizar a BBC, o pai conseguiu entender que os Aliados estavam a caminho. Era a sua última esperança. As meninas, Sara e Sofia, não conseguiam mais chorar. Sofia não falava havia quatro anos e quatro meses; a última palavra que tinha dito era “medo” ao ouvir o passo forte e ritmado das botas dos soldados nazistas lá fora, na rua. Sara às vezes a colocava no colo e lhe contava histórias, bem baixinho. Era a sua maneira de também ter esperança, dando à irmã um fiapo de ficção a que se agarrar, em meio a toda a miséria em que se encontravam. Samuel também tinha esperança; mas toda ela estava depositada na capicua, no momento exato da confluência de vários números 4, quando ele e a família poderiam escapar, viajando pelo tempo até um lugar menos impiedoso, uma época menos miserável, onde poderiam andar na rua sem ter que ostentar uma estrela de David azul no braço. Onde não teriam que aturar as cusparadas de outros enquanto andavam pela rua; onde teriam pão e mel em abundância, onde iriam para a escola, onde não seriam discriminados apenas por não comerem carne de porco e por não se ajoelharem diante de uma estátua de um homem pregado numa cruz.

Agora Samuel esperava o momento exato. Olhava para a parede, e mentalizava a sua saída daquele inferno. Os tijolos começaram a adquirir uma cor translúcida, até sumirem. Uma névoa ocupou o lugar onde os tijolos estavam. O pai de Samuel se aproximou por trás dele, finalmente acreditando na quimera do filho. Do outro lado, começaram a ver uma sala, com móveis requintados, e uma cadeira de balanço onde se sentava uma pessoa; a neblina foi se desfazendo, e perceberam que na cadeira se sentava uma velhinha, com os olhos fixos neles. Samuel ria, com lágrimas nos olhos, enxergando no rosto do pai o arrependimento por não ter acreditado no filho. Sara e Sofia estavam boquiabertas, sem acreditar no que viam. Sofia olhou nos olhos da velha do outro lado da parede; algo naqueles olhos a fizeram estremecer; sentiu um medo, um frio em todo o seu ser, e quando a velha se levantou e caminhou para o porão, Sofia não suportou mais: por mais que ela sentisse que não devia, que aquilo era contra tudo o que tinham feito até então, a menina abriu a boca e pela primeira vez em quatro anos e quatro meses, soltou um som, gritando com toda a força de seus pulmões.

Lá fora, soldados nazistas ouviram o barulho, e sem ouvir as desculpas esfarrapadas do dono da loja de picles, entraram no porão atirando. Samuel foi o primeiro a ser atingido, tentando proteger o pai; Sara caiu por cima de Sofia, que por instinto, ficou calada por baixo do corpo da irmã. Os soldados depois a encontraram, e levaram-na para Auschwitz, de onde só sairia ao final da guerra, para se casar no outro lado do Atlântico, em Nova York.

(continua abaixo)



Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 08h50
[   ] [ envie esta mensagem ]




Nova York, 04/04/04.

O relógio digital marcava 4 horas e 3 minutos da madrugada. Sofia apertava o xale contra os ombros, indo para frente e para trás na cadeira de balanço. Durante anos, tinha se preparado para aquele momento. Fora por sua culpa que Samuel não tinha conseguido escapar. Se ela pudesse pelo menos ajudá-lo por um só instante…

Concentrou-se no que tinha que fazer. Abriu os vidros de picles que tinha comprado há algumas semanas. O cheiro invadiu a sala, e ela se sentiu de novo no porão da Kalverstraat Street. A parede de sua cobertura começou a se esfumaçar, como a parede do porão de 60 anos atrás. Do outro lado, através da névoa, ela podia divisar Samuel, o pai, e as duas meninas ao fundo. Sem pensar duas vezes, sentindo a dor da artrite como agulhas entrando por todo o seu corpo, ela se levantou e correu, o mais rápido que pôde. Samuel, ainda rindo, foi puxado por ela para dentro da sala. A velha tentou empurrar também o pai, mas ela não tinha tanta força; abobado com a situação, o pai olhava para o rosto de Sofia, reconhecendo-a de algum lugar… A pequena menina no colo de Sara começou a gritar, e a velha a tomou dos braços da irmã, dizendo:

- Corra para lá dentro!

Foi tarde demais. Os soldados entraram atirando de novo, desta vez matando a todos que estavam do lado de cá do porão. Do outro lado da parede, que se fechava, no quadragésimo quarto andar de um edifício de luxo em Nova York, Samuel chorava, sem saber onde estava, sujando o imaculado tapete felpudo e branco com seus pés imundos, ainda sentindo o cheiro dos vidros de compotas de picles em cima da mesa ao lado da cadeira de balanço. Do outro lado, no porão da Kalverstraat, jaziam quatro cadáveres: o corpo do pai, de Sara, e de uma velha abraçada a uma garota, ambas com cordões de ouro ao pescoço indicando o mesmo nome: Sofia Davidovitz. Foram enterrados em uma só cova, quatro corpos abraçados e nus, enquanto um grito pavoroso inundava o 44º andar de um edifício em Nova York, sessenta anos depois.
 
por Fernando Américo


Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 08h49
[   ] [ envie esta mensagem ]




coluna A VAGA SAGA DE ZAGO

O vão

“Não acredito que este vestido tá apertadoooo!” Otávia rodopiava pelo quarto lutando com o zíper.

Suada, descabelada e acabada, ela sentou no sofá e por um bom tempo ficou lá, olhando por baixo do braço admirando aquele espaço, aquelas duas partes que um dia se uniam de forma tão fácil, tão simples, tão sem nem pensar, só zip e pronto. E hoje pareciam inimigas mortais! Nada as fazia ficar juntas, uma mínima aproximação e a sensação que dava é que se afastavam ainda mais, só uma ponte para unir as duas bandas. Logo que colocou o vestido parecia ser só um espacinho, mas agora eram quatro dedos!

 

Invadida por uma nova onda de sentimentos, ela se afundou nas almofadas tentando arquitetar como tudo isto aconteceu. Que fatores levaram à aparição deste vão de quatro dedos!? Os bombonzinhos da TPM? O amendoim do Happy Hour? Aquele cereal matinal integral? O novo vício de degustar os capuccinos nestes cafés da moda? A descoberta de que mortadela é realmente bem melhor do que blanchet de peru? Ou será que foi o que deixou de fazer? A academia, a caminhada de sábado ou aquela viagem de ecoturismo? A promessa descumprida de usar as escadas ao invés do elevador?

Ah! A culpa pode não ser só minha. E se a máquina fez mal para o vestido e até agora ele estava em choque, todo encolhido!?”. Sacudiu a cabeça porque já começava a se perder em devaneios “otavianos” (neste caso, literalmente bem justos).

 

Fechou os olhos, respirou, se largou de vez no sofá e pronto! Pensou rapidamente em uma nova combinação muito mais fashion, alto astral, que com certeza chamaria mais a atenção: ela iria a-rra-sar!. Afinal o que ela realmente queria era ir naquela festa.

Levantou e começou a se arrumar. Deu os últimos retoques e quando estava pronta para sair, olhou ao redor do quarto. Sua atenção foi parar no vestido que jazia largado no chão. Agarrou-o com toda força, e disse bravamente:

Eu juro que vou entrar em você. E logo! Vou perder quatro quilos! Um quilo para cada dedinho!

Deixou o vestido no sofá, e se virou vaporosa em direção à festa.

 

por Vanessa Zago



Categoria: Vanessa Zago
Escrito por Menu do Texto às 22h53
[   ] [ envie esta mensagem ]




coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS

As quatro fases da Lua

 Meninas, desçam a coluna de estrelas imediatamente.

 Hoje é o grande dia! Finalmente, descobri a maneira

de acabar com a briga entre vocês.

Atenciosamente, Mago Thales.

 

Este era o conteúdo da missiva que o Mestre enviara às suas alunas. Tratava-se de Farzana, Kylka, Malvy e Aisha, estagiárias do curso de bruxas do Mago.

Havia entre elas uma acirrada disputa pelo domínio lunar. Cada uma delas, em suas respectivas auto-suficiências, achava-se capaz de governar a Lua, e a decisão final, que resolveria tudo, cabia ao mestre que, porém, nunca se convencera de que elas fossem capazes de tal missão.

No último encontro, o Mestre, constrangido, não conseguia dizer que nenhuma delas estava preparada para tal tarefa. Nenhuma solução apresentada, a coisa pegou fogo. Para protestar, elas se foram, abandonando o curso.

 

Agora, a carta do Mestre as renovava de esperanças. Elas atenderam prontamente o chamado. Ao vê-las, o Mago não conteve a satisfação, mas disfarçou o sorriso em um pequeno movimento com o canto da boca. Elas, ainda cobertas pelo orgulho-próprio que havia lhes acabado a amizade, mal se olhavam. Mas antes que brigassem novamente, o Mago logo começou a falar.

(continua abaixo)



Categoria: Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 13h28
[   ] [ envie esta mensagem ]




(continuação)

_ Alunas queridas quanto tempo! Confesso que senti saudades. Trabalhei intensamente nos últimos tempos para que vocês fizessem as pazes.

Farzana, enraivecida, não se conteve e logo tratou de perguntar:

__Então o mestre percebeu que eu sou a bruxa mais capaz para tomar conta da lua e assim tornar-me sua Deusa?

_ Ela continua convencida – resmungou Kylka.

O Mestre ignorou e prosseguiu.

__ Nada disso. Sei que vocês quatro querem se tornar a grande Deusa da Lua, tarefa que acho pesada demais para uma só. Assim, decidi dividi-la em fase, para que cada uma de vocês tenha sua própria faceta a governar. A tarefa se tornará menos cansativa e muito mais agradável.

_ Não achei uma boa idéia. Acho que não existe espaço para quatro deusas neste universo. Somente eu bastaria, esbravejou novamente Kylka.

_ Escutem o que estou falando. Para alcançar a lua em toda sua plenitude, vocês deverão se desprender de todo e qualquer sentimento negativo que exista dentro de vocês. As fases estão prontas, cada qual com sua peculiaridade, esperando por cada uma de vocês.

As quatro bruxas se entreolharam, num misto de decepção de curiosidade.

__ Vocês irão gostar do que lhes preparei. Nada mais, nada menos do que cada uma merece. Para a corajosa Farzana, preparei a lua nova, o momento da busca por novos caminhos, ainda que pautados pela escuridão.

Farzana sorriu, feliz com o reconhecimento do traço mais marcante de sua personalidade. O Mestre prosseguiu:

__ Para a sensível e maternal Malvy, separei a fase crescente, momento de plantarmos e cuidarmos de tudo aquilo que desejamos ver se desenvolver.

Malvy chorou, emocionada de tão satisfeita.

__ Para a iluminada e vaidosa Aisha, deixei a plenitude da lua cheia, desejando que sua energia e brilho sirva de norte para todos aqueles que querem alcançar os seus objetivos. E finalmente...

A geniosa Kylka ficou esperando durante alguns segundos. Não podia acreditar que havia ficado para o final. O que o Mago teria reservado para ela?

(continua abaixo)



Categoria: Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 13h27
[   ] [ envie esta mensagem ]




(continuação)

__ Para a impulsiva Kylka, reservei a fase minguante, a do término dos ciclos, do final das jornadas e do fechar das tormentas.

O Mago terminou de falar e desapareceu por alguns instantes, dando a entender que logo retornaria.

Kylka se assustou. Como poderia ficar justamente com a fase do término do ciclo? Era impulsiva demais, e incapaz de permitir o final de qualquer coisa que não tivesse lhe saído a contento. As outras bruxas também estranharam, e se solidarizam com Kylka.

__ Realmente, não entendo – disse Aisha.

__ Puxa, ele deve ter algum motivo – confiou Malvy.

__ Nem vem, Kylka. Não me olhe assim, que eu estou felicíssima com a fase cheia.

Kylka pensou, pensou, e no final entendeu que deveria reclamar com o mestre, tão logo ele retornasse.

Uma fumaça se formou no ambiente, e o Mestre se materializou uma vez mais.

__ Mestre, eu não entendo a sua escolha. A Farzana sempre foi a mais brava, briguenta e corajosa de nós quatro. A Malvy, sempre foi a maternal, carinhosa e, porque não dizer, hipersensível. A Aisha sempre foi cheia de energia, alegria e, claro, vaidade extrema. Todas elas estão coerentes com as fases nas quais o senhor as colocou. Agora eu, Mestre, sempre fui impulsiva, desbocada, desmedida, sempre hiperativa, querendo mudar e...

__ Você é, por isso tudo, perfeita para a fase minguante, minha querida.

__ Não entendo, Mestre. Como assim? Como que eu posso ser perfeita para uma fase ligada ao final, ao término, à última parte da jornada?

__ Aí que você se engana, minha querida Kylka. As jornadas da eternidade são feitas de ciclos, ou círculos, caso prefira. Não há fim, mas constante renovação. Isso significa que o que você chama de final, não o é. Tampouco deve estar ligado à tristeza, à falta de energias ou à ausência de sonhos. O final de um ciclo deve estar ligado à força que nos faz querer mudar. Por isso, Kylka, você é perfeita para a fase minguante, para a fase em que sentimos a necessidade de mudar, que percebemos que as coisas já não estão em sua plenitude e que logo, um novo caminho deverá ser encontrado. Kylka, a impulsiva, dará à Lua a capacidade de se permitir aventurar em uma nova jornada, ainda que para tanto, tenha uma vez mais, de mergulhar na escuridão.

As quatro ficaram boquiabertas com a explicação do Mestre, e perceberam que realmente havia algo que as unia. Tinha personalidades opostas, mas complementares, e não poderiam continuar brigando entre si. A amizade retornou, e puderam se tornar parte do mesmo ciclo eterno da renovação.

Assim tiveram origem as fases da lua. Cada uma com sua magia, forma e cor peculiares, sempre a nos regar de boas energias, influenciando de maneira sutil nossas atividades, sensibilidades e emoções.

por Alice Betânia



Categoria: Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 13h20
[   ] [ envie esta mensagem ]




coluna ANDALUZA

Faz um QUATRO aí....

 

 

O quarto texto é o QUATRO.

É o quatro regendo a vida.  

As quatro estações Vivaldi.

Primavera, Verão, Outono e Inverno, fazendo morrer e renascer os quatro cantos do mundo, nos seus quatro pontos cardeais.

A bússola da vida e o seu magnetismo.

- E se o Norte fosse embaixo, tudo seria diferente?  

O sol nasceria no Oeste e o Cruzeiro não seria do Sul.

As quatro fases da Lua regendo nossas paixões e as belas palavras do poeta.

Lua cheia das noites de ardentia.  Lua Crescente das marés e das colheitas.

Nossa sorte encontrada nos trevos de quatro folhas ou nas quatro partes do Obí.  

O destino que se divide em quatro dias: nascer, crescer, procriar e morrer.

São todos os amores vividos de quatro entre quatro paredes, gemidos e gritados aos quatro ventos.

O ser humano de quatro membros andando sobre as quatro patas de um cavalo, moderno sobre as quatro rodas de um carro veloz, nas quatro semanas do mês.

Quatro anos de mandato, sinfonia tocada a quatro mãos no piano do Congresso.

 Só por Deus e os quatro evangelistas a nos guiar: Mateus, Lucas, João e... hummm, esqueci o quarto.   

 Tiago, Tiago!  Se o é maior ou  o menor, já não sei.

O que importa é que desde Pitágoras dois mais dois ainda são quatro.

Os quatro quartos de um inteiro. 

O ser humano inteiro, mas sempre de quatro.

As quatro cores da bandeira. O Verde das matas e das queimadas, o Amarelo do ouro que já não temos, o Azul do céu e da camada de ozônio e o Branco da paz que não chega nunca.

Descanse em paz.

Os quatro Ases na manga. 

Quatro naipes de um mesmo baralho. 

O Imperador, arcano quatro do Tarot – apoio, proteção, poder e estabilidade. 

As quatro faces da pirâmide de Gizeh.

Os quatro lados do quadrado.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse prometendo desgraça, miséria, fome  e o Diabo a Quatro.

Se beber não dirija e faz um QUATRO aí que eu quero ver.

 

por Cristina Ruiz



Categoria: Cristina Ruiz
Escrito por Menu do Texto às 10h38
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
  16/02/2007 a 28/02/2007
  01/02/2007 a 15/02/2007
  16/01/2007 a 31/01/2007
  01/01/2007 a 15/01/2007
  16/12/2006 a 31/12/2006
  01/12/2006 a 15/12/2006
  16/11/2006 a 30/11/2006


Categorias
  TODAS AS COLUNAS
  Leonardo de Moraes
  Cristina Ruiz
  Alice Betânia
  Fernando Américo
  Vanessa Zago
Outros sites
  Ragazzo di Famiglia
  Site "Leonardo de Moraes"
  Um leque andaluz
Votação
  Dê uma nota para meu blog