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coluna AMERICANA

Primeira(s) Pessoa(s)

 

 

Seis da tarde de um dia de verão em Lisboa. Um funcionário público sai de sua repartição e caminha pelas ruas do Chiado, evitando como que por capricho pisar nas pedras negras da calçada. Sobe os degraus amplos que levam ao pequeno restaurante conhecido como A BRASILEIRA.

- Então, senhor Fernando, achei que não vinha hoje, pá!

O homem não responde ao garçom. Cofia calmamente os bigodes, se sentando em sua mesa de costume, na esplanada, do lado de fora do restaurante. Mantém o ar calmo e reflexivo de quem não sabe onde está, e quem o visse pensaria que seu nome não era Fernando, que o garçom o tinha confundido com outra pessoa.

- ‘Tá a me ouvir? Ei, senhor Fernando… Senhor Fernando Pessoa!

Finalmente o homem acorda, pára de cofiar os bigodes, mal cumprimenta o garçom que o vê todos os dias, pede seu habitual café (“uma bica cheia, se faz favor”) e uma ginjinha. O garçom, já acostumado com o fato do cliente nunca responder seus gracejos, e o tratar sempre com uma certa rispidez superior, traz os pedidos, depois encosta-se ao balcão enquanto observa o curioso homenzinho sentado sozinho, como sempre, numa mesa para quatro pessoas.

 

Enquanto mexe o açúcar do café com a colherzinha de prata, Fernando ouve passos apressados; sem se virar sabe que Álvaro de Campos chegou.

- Então, homem, por que esta gana de me encontrar a esta hora? Sabes que acordo tarde, e que não gosto de sair de casa enquanto ainda é dia. Só a noite é minha amiga, Fernando, bem o sabes.

- Espera; quero que cheguem os outros também.

- O palerma do Ricardo Reis e o Mestre Alberto? Ora vivas, vamos ter uma reunião e pêras! Sempre te encontras com apenas um de nós… Qual é a ocasião para estarmos todos juntos hoje?

- Já vais saber.

(continua abaixo)



Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 17h32
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II

Pouco depois vinham andando pela rua de cima Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Vinham discutindo, como sempre, Ricardo tentando convencer Alberto a escrever suas memórias.

- Sabes que não acredito em eternidade e em glórias passadas; não quero deixar nenhum monumento literário para que se lembrem de quem eu fui. E além do mais, as memórias são minhas, não quero dividi-las com ninguém.

- Se calhar, queres que nós escrevamos tuas memórias. Já falei que não tenho tempo! Quem sabe nosso amigo Fernando Pessoa não pode se entregar a esta inglória tarefa de contar tua história?

- Já te disse que não quero ser lembrado; quando morrer, morri, pronto. E de mais a mais, nosso amigo Fernando é muito ocupado, já tem mais o que fazer do que escrever histórias de outrem.

E assim se aproximam da mesa, sentam-se, cumprimentam os outros dois, revelam também sua surpresa pelo urgência do encontro marcado, perguntam a Fernando Pessoa o porquê de tanta urgência.

- Quero comunicar a vocês que pretendo me casar em breve, com Ophélia.

Alberto Caeiro se recosta na cadeira, francamente surpreendido. Ricardo Reis pára com seu copo a meio caminho da boca, e Álvaro de Campos é o único a falar.

- Com que então vais dar o nó? Então vai nos abandonar, o maroto! Nunca pensei…

- Poderás ainda escrever poesias conosco?, pergunta Alberto Caeiro, olhando sorrateiramente para Ricardo e Álvaro.

- Este é o problema. Ophélia anda cansada de me ver escrevendo até tarde, à luz de lampiões de gás. Diz que gasto minha saúde, que a ginjinha ainda vai me matar, e ela diz que me ama, que quer cuidar de mim.

- Mulheres! Sempre dispostas a se entranhar em nós, a nos conhecer melhor do que nós mesmos…

Ao dizer isto, Ricardo Reis se vira para o amigo Fernando, como que mostrando a sua lealdade canina a ele. Fernando tem vergonha de encarar os olhos dos amigos, que mostram sua decepção.

(continua abaixo)



Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 17h31
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III

 

- Bem, não é por isso que vamos deixar de nos ver…

- Ophélia diz que devemos nos mudar definitivamente para Durban.

Os quatro se calam. As conversas dos outros clientes nas mesas são ouvidas de maneira perfeita e cruel, num silêncio que pode ser cortado à faca. Mas o que corta o silêncio é a risada de Álvaro, aquela risada que parece vir do fundo da alma para escarnecer de tudo e todos.

- Com que então a menina quer-te só para ela…

- Nunca pensei que as cartas de amor que te ajudei a escrever tivessem tanto efeito…

- Não tiveram, Alberto. Ophélia rasgou-as todas. Acha que são ridículas.

- Todas as cartas de amor são ridículas.

Álvaro fala com uma certa malícia na voz. Alberto e Ricardo percebem que ele solta a frase quase como um desafio a Fernando, como se pedisse que ele completasse. Um brilho nos olhos dos três homens denuncia a esperança de que Fernando se entregue mais uma vez à poesia e esqueça da traidora, da vil, da egoísta Ophélia, aquela que quer terminar esta amizade tão profícua e duradoura que existe entre eles.

Fernando levanta os olhos, já iluminados pela faísca da poesia.

- Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas – completa Fernando.

Fernando pega caneta e papel, escreve as duas frases. Alberto, Álvaro e Ricardo se entreolham, vitoriosos: não será desta vez que Ophélia vencerá.

(continua abaixo)



Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 17h30
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IV

 

No balcão, o garçom, depois de uma maratona de pedidos, volta a olhar para o solitário Fernando Pessoa.

“Que será que ele tem? Vive sozinho nessa mesa, pede sempre o mesmo – uma bica e uma ginja – depois fica parado por um tempo enorme, apenas olhando fixamente para o nada… Depois, como que por encanto, como se tivessem lhe soprado ao ouvido algo que ele não pode esquecer, começa a escrever febrilmente com sua caneta e um papel. Quem será esse homem? Por que é tão solitário? O que ele escreve? Que prazer pode ter uma vida como essa?”

O garçom, perdido nestes pensamentos, vê Fernando Pessoa pedir a conta. Vai até ele, recebe o dinheiro, dá-lhe o troco, e não resiste a uma observação:

- O patrão sempre me pergunta se o senhor não poderia sentar em outra mesa, menor… Diz que esta tem quatro lugares, e como o senhor se senta sempre sozinho, não tem necessidade, e ele poderia deixar esta mesa para clientes que venham acompanhados…

- Não, não posso. Se seu patrão quiser, posso pagar mais…

- Não se trata disso…

- Então por favor, peça ao seu patrão que não me incomode mais com este pedido.

O garçom concorda, pede desculpas, enquanto vê Fernando Pessoa se afastar. Sente o sangue ferver de ódio do pequeno homem de bigodinho, sempre mal-educado. Ele se acha muito importante, pensa o garçom, mas é tão pequeno quanto eu. Nunca será lembrado, quando morrer ninguém pensará mais nele. Será esquecido para sempre. Com este pensamento consolador, o garçom volta à sua maratona de pedidos.

 

Obs: Fernando Pessoa foi um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Escrevia em seu nome, mas também em outros nomes, conhecidos como seus heterônimos ­– Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, e Ricardo Reis. Cada um tinha sua individualidade, a ponto de Pessoa ter desenhado o mapa astral de cada um deles. Ophélia Queirós era a namorada de Fernando Pessoa; nunca se casaram. Fernando Pessoa morreu depois de editar um único livro, MENSAGEM. Depois de sua morte é que se descobriu a riqueza da poesia de seus heterônimos, que apesar de nunca existir, deixaram uma obra consistente como a de poucos poetas de carne e osso.

 

por Fernando Américo



Categoria: Fernando Américo
Escrito por Menu do Texto às 17h29
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coluna ALICE NO PAÍS DAS LETRAS

A arte de fingir

 

 

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

Este era o poema que Raílda acabara de ler. Era o seu predileto e, muitas vezes, mais uma ferramenta de trabalho que somente um poema. Ela era uma mulher aparentemente alegre, engraçada, não economizava uma boa gargalhada em certas situações. Mas contradizendo seu bom-humor, seus olhos ocultavam uma tristeza profunda, talvez causada pela solidão e a instabilidade de sua profissão. Raílda era uma carpideira, profissão antiga que vinha passando de geração em geração.

 

Olhou para o relógio, percebeu que já estava na hora. Fechou o livro, levantou-se e, diante do espelho, conferiu se estava vestida adequadamente. O preto sempre lhe caia muito bem e buscou o último acessório: um chapéu preto com véu que lhe cobria parte do rosto.

Ainda diante do espelho, abriu um largo sorriso, ensaiou uma expressão de tristeza e dor, depois voltou a sorrir novamente. Passou pela mesinha de centro, conferiu as contas vencidas inclusive o aviso de corte de luz, respirou fundo e saiu. No caminho, já começou a preparar-se para a missão. Concentrou-se, buscando algumas lembranças triste de sua vida, inclusive a ameaça de ficar no escuro.

Finalmente chegou ao local de trabalho. O cemitério da paz. Flores de diversas espécies decoravam o ambiente. Coroas, com mensagens de saudade, faziam sua última homenagem ao morto:

“Saudade da turma dos pães-duros”. “ Saudade do boteco do João “Saudade da esposa e filhos”.

Com uma postura invejável, Raílda cumprimentou a família e se dirigiu ao caixão. Ao encarar o morto inerte, seu coração disparou descompassadamente. Teve de engolir o susto. Ficara tão pálida quanto o defunto. Tratava-se de Frederico, seu único e grande amor.

(continua abaixo)



Categoria: Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 14h43
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II.

Conheceram-se no colégio, viveram uma grande paixão de juventude. Mas este amor foi interrompido pela mudança da família dele para o exterior. Nunca mais se viram. Frederico respondera somente uma de suas várias cartas. Nela, Frederico contava maravilhas de um mundo distante de sua realidade. Uma única carta, um único grande amor.

Depois de Frederico, a vida de Raílda continuou sendo só saudades, sempre disfarçadas por risadas largas e sonoras. Sentia saudades: do primeiro olhar; do primeiro toque de mãos; do primeiro beijo; das juras de amor; dos planos para o futuro; da alegria e do descomprometimento com as regras da vida. Railda sempre alimentara a esperança de um reencontro. Quando descobriu que isso não seria mais possível, sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Seu coração doía tanto... que se desfez em lágrimas.

Tocou levemente a face do morto, agora, já não tão firme, e quente como antes. O rosado viçoso deu lugar a um amarelo triste e frio. Seus cabelos fartos e negros, agora escassos e brancos. O amor de Railda, não mudara, suportara o tempo bravamente.

Chorou, chorou e chorou. Os parentes que haviam contratado seus serviços se entreolharam, achando um tanto quanto exagerado sua performance. Mas o que para alguns era fingimento, para Raílda era pura dor, uma dor incapaz de ser amenizada, talvez uma das mais sinceras do velório.

Ofereceram-lhe um chá de camomila. Foi preciso repor os lencinhos de papel. Raílda havia se perdido em suas lembranças e dor, sem noção do tempo. Tinha sido contratada para chorar apenas durante uma hora... foi quando um parente a chamou a um canto, dispensando seu trabalho.

Ela voltou ao caixão olhou pela última vez para Frederico, despedindo-se não só do seu grande amor, mas também de suas esperanças e sonhos. Confortou-se ao observar as mensagens, as flores, os amigos e a família. Frederico tinha sido um homem realizado e feliz.

Do lado de fora do velório, Railda recebeu pelo seu trabalho, e se foi. Com aquele dinheiro pagaria a conta de luz... embora sentisse que seu coração permaneceria, dali em diante, permaneceria em plena escuridão.

por Alice Betânia



Categoria: Alice Betânia
Escrito por Menu do Texto às 14h40
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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC

Água e óleo

 

 

Ela entrou no escritório dele, como quem não queria nada, e se sentou à frente de sua mesa. Tratou logo de esconder as mãos entre as pregas da saia.

 

__ Quero muito falar com o senhor.

__ Um minuto só, que estou terminando de digitar este e-mail.

 

Ele ajeitou a gravata e continuou, por mais algum tempo, olhando para a tela do computador. Sobre sua mesa, um porta-lápis presenteado por ela no último amigo secreto da repartição - propositalmente fraudado para que conseguisse se aproximar dele -; vários papéis para serem despachados; uma Constituição e inúmeros livros, tanto jurídicos quanto de poesia. Um, em especial, chamou a atenção da moça de mãos suadas, a esperar que ele redigisse o interminável.

 

__ Gosta de Fernando Pessoa? Disse ele, virando-se rapidamente nas rodinhas da confortável cadeira de couro.

__ Gosto, acho.

__ Quer pegar pra você? Digo, pegar emprestado? Depois de ler, me diga o que achou.

__ Pode ser – e ela estendeu a mão para pegar o livro sobre a mesa. Ao fazer esse movimento, revelou o que tentava esconder, desde que entrara na sala.

 

__ O que é isso no seu dedo?

(continua abaixo)



Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 18h05
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II

__ O quê? Ela ficou hesitante, havia se distraído e pretendia contar-lhe antes que fosse denunciada pela aliança que reluzia em sua mão direita.

 

__ Fiquei noiva... eu...

__ O que?

__ ... vou me casar.

 

Ele pareceu engasgar.

 

__ Como casar?

__ Casando, oras. O Wesley do almoxarifado me pediu em casamento, mês passado. Resolvi aceitar neste feriado e, bem, fizemos festa de noivado e tudo. A família dele inteira fez farra. Ele já pediu crédito pra construir um quartinho nos fundos da casa da mãe e parcelou essa aliança aqui e...

__ Não quero saber dos detalhes, Marta. Eu só não entendo.

__ Como assim não entende?

__ Você é apaixonada por mim.

__ Eu... o que?

__ Todo mundo sabe. E nosso envolvimento não foi apenas... apenas sexo.

__ Como? Olha, a gente havia combinado que não falaria disso aqui no trabalho. E eu sou noiva do Wesley agora!

__ Você não é noiva de ninguém. Você deve ter comprado essa aliança aí só pra me irritar.

__ Ah, vá... você não acha que...

__ Senhor, me chame de senhor, sou seu chefe.

__ O senhor é um tremendo de um umbigóide. Acha que é o centro do sistema solar?

__ Umbigóide? Puxa, que criativa! Pelo visto andou lendo mesmo os livros que te emprestei.

Ela se irritou, pondo-se de pé.

(continua abaixo)



Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 18h03
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III

 

__ Vai agora também me chamar de ignorante? De burra?

__ Calma, Martha, calma. Fala baixo. A porta está aberta e todos aqui vão ouvir.

Ela se calou e sentou.

__ Inclusive o Wesley pode ouvir, não é mesmo?

__ É... vou me acalmar. Mas olha, eu vim aqui pra dizer que vou me casar e que estou apaixonada. O Wesley é o homem da minha vida e nossa relação, a partir de hoje, Dr. Teixeira, é estritamente profissional. Senão...

__ Senão o que? Me processa? Alega assédio sexual?

__ Não... não sei. Olha, quero apenas descobrir aqui, no trabalho, toda uma nova relação. Adoro os livros que me dá pra ler, adoro aprender. Mas não quero mais me envolver, me apaixonar e sentir que você...

__ Eu o quê?

__ Tem vergonha de mim. Vergonha de assumir que me ama.

__ Eu o que? Eu te amo? Ah, Marta, pára com isso!

 

Ela conteve o choro. As lágrimas que iriam saltar foram contidas, brilhando equilibradas entre os cílios.

 

__ Quer saber, acho que vou pedir transferência...

__ Olha Marta, vamos deixar essa conversa pra uma outra hora, está bem? Todos aqui gostam de você. Teu trabalho é impecável. Mas... conversamos depois, sabe que tenho uma reunião pra daqui a pouco e...

__ Está bem, está bem.

__ Leve o livro. Pegue!

 

Ela pegou o livro, acariciou a capa e saiu da sala.

__ Mas é o último que eu pego emprestado, Dr. Teixeira.

 

Quando ela deu de costas, ele ficou tenso e magoado. Talvez ela tivesse razão com relação a absolutamente tudo. Talvez ele a amasse de alguma forma. O fato é que se sentia absolutamente conectado a Marta, de uma forma estranha, visceral, genital. Mas eram definitivamente água e óleo, que até formam uma emulsão, mas apenas tendo que agitar, agitar, agitar muito. Ao pensar nisso, ele se excitou, mas preferiu focar os pensamentos na reunião de diretoria, dali a dez minutos.

(continua abaixo)



Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 18h02
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IV

Horas mais tarde, depois do almoço, Marta se pôs a ler o livro que ele havia lhe emprestado. Havia comido sozinha, para espairecer. Durante a leitura, encontrou em um dos poemas de Fernando Pessoa – ignorava que fosse um clássico – o alento para a maneira que se portara durante toda a manhã.

__ Marta, e aí menina? Conversou com ele? - perguntou Shirlene, sub-secretária da repartição, que havia almoçado numa mesa ao longe.

__ Ah... conversei, amiga.

__ Você é mesmo doida, Marta. Completamente insana... – e Shirlene sorriu, chupando uma casquinha de creme enquanto olhava, lasciva, para um dos garçons do restaurante.

__ Todas nós queremos nos ajeitar na vida, não é mesmo? Eu não sou doida nada, sou é doida nele. E quer saber, descobri que sou uma poeta.

__ Hein??

__ Poeta, eu sou uma poeta, Shirlene.

__ Hã? Pirou, menina? Como assim poeta? Aliás, não é poeta, é po-e-ti-sa que se fala!

__ Poeta, poetisa. Não importa. Escuta só, vou um trecho pra você:

 

“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente”.

 

__ Nossa, Marta! Que lindo! Foi você que escreveu? É uma poetisa mesmo!

__ Não, não fui eu, Shirlene. Foi o Fernando.

__ Quem?

__ Fernando Pessoa. Um escritor aí. E olha, eu descobri que sou uma poeta e não uma fingida.

__ Sei, sei. Tá bem, amiga. Mas olha, vê se me devolve essa aliança no final desta semana, senão o Waldemar vai começar a achar que eu estou tendo um caso. Eu disse pra ele que tinha levado pra polir na joalheria.

__ Está bem, Shirlene, mas vamos esperar só essa semana. Quero ver a reação do meu lindinho. Ele ficou cheio de ciúmes, eu sei. Depois vou agradecer ao Wesley pela idéia... Gays são ótimos pra pensar nessas coisas de coração, não são?

__ Deus do céu, Marta! Dizer que o Wesley é seu noivo... será que ele engoliu? Mentira mais louca.

__ Pára, Shirlene. Não sou louca! Nem sou mentirosa! Sou uma poeta! Uma po-e-ti-sa!!!

(continua abaixo)



Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 18h01
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IV

 

A história não vingaria. Na linha do destino, já estava escrito que dez dias depois Dr. Teixeira diria adeus, indo trabalhar no Rio de Janeiro. Inclusive, nesta festinha de despedida na repartição, onde os croquetes e empadinhas seriam comentadíssimos, Marta iria se embriagar e, na volta para casa, entrar numa borracharia, perto do ponto de ônibus. Segundo consta, a moça iria pedir para usar o banheiro urgente. “Eu sou uma poetisa”, ela diria sem parar para Osório, o dono do estabelecimento. Ele se apaixonaria imediatamente e, dali a pouco, se uniriam num casamento coletivo, realizado no Estádio do Ibirapuera. Os anos passariam, e ela realmente começaria a escrever poemas, bem como canções. Uma delas, Água e Óleo, viraria pagode e trilha de novela, embalando o romance de Cléo Ximenes, no papel de mocinha pobre e gananciosa, e de Tarcísio Lacerda, no papel de patrão e solteirão cobiçado.

 

Mas enquanto esses desvarios do futuro não se concretizavam, lá estava ela, sentada na mesa do restaurante e diante de Shirlene - que por sua vez, já trocara telefones com o garçom que desejara. Marta suspirava, plena de esperanças com relação ao seu futuro:

 

__ Dr. Teixeira, nosso amor será lindo! A dor que fingi, mas que sinto de verdade, vai atiçar o seu amor por mim. Você e eu, para sempre! Como num poema!

 

por Leonardo de Moraes



Categoria: Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 18h00
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coluna ANDALUZA

POETAS

 LM

 

Lisboa, 1915.

No Largo de São Carlos, na mesa de um café, estão sentados a conversar seis amigos inseparáveis. Seis poetas admiráveis. Seis escritores das verdades.

Discutiam entre si, filosoficamente, em meio a chás fumegantes, licores e acepipes, o tom da verdade de cada um deles.

O francês Chevalier des Pás é o menos atuante do grupo, tendo outra profissão que o afasta sistematicamente dos meios literários, embora não menos culto, afirma, com seu sotaque de “erres”

 

 “ - Que a verdade é relativa ao seu tempo e ao momento em que se apresenta.”

 

Os outros desconfiam, mas assentem.

Alexander Search, inglês nascido em Durban e por isso mesmo um tanto mais pragmático, determina com sua forte personalidade, que a verdade de uma questão é fundamental para que ela seja compreendida.

 

“- But since men see more with the eyes than the soul.”

 

Dúvidas pairam no ar.

(continua abaixo)



Categoria: Cristina Ruiz
Escrito por Menu do Texto às 01h15
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(continuação - II)

Alberto Caeiro, que raras vezes deixava sua quinta em Ribatejo, já apresentava por aqueles dias de 1915 a fraqueza dos pulmões que o mataria alguns meses depois, mas ainda assim, entre suspiros e sorrisos, diz poeticamente:

 

“- Estas verdades não são perfeitas porque são ditas. E antes de ditas, pensadas.”

 

Os outros todos o miram num misto de pena e admiração. 

Concordam com ele, mas ainda assim querem compreender mais e mais, na incessante busca pelo real.

Quedam-se calados, mirando as pedras irregulares do piso, o céu, os transeuntes. A fumaça do cigarro. Buscam inspiração no entorno que lhes é palpável. Sabem que a verdade é momentânea.  Como o sol preguiçoso da tarde que se desfaz em Lisboa.

Após cinco soberbas taças de vinho, Álvaro de Campos, o mais rompante d’entre todos, sente-se à vontade para bradar em meio ao silêncio:

 

-“Graças a Deus, porque, como na bebedeira,

Isto é uma solução,

Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!

Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!”

 

Algumas pessoas nas outras mesas viram-se para olhar de onde partiu tal grito.  Sem se deixar intimidar, Álvaro brinda no ar sua taça que já ia a meio e lhes sorri. Os amigos riem, divertidos. Álvaro arria-se na cadeira, displicente.

(continua abaixo)



Categoria: Cristina Ruiz
Escrito por Menu do Texto às 01h14
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(continuação - III)

 

Depressivo e triste como um fado, Ricardo Reis, que nada bebia que o pudesse entristecer ainda mais, como se isso fosse possível, abusa de um falso estoicismo e tenta iludir o sofrimento resultante da consciência aguda da precariedade da vida. Levanta-se, faz mesura e diz:

 

- “Para ser grande, sê inteiro:  nada Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.

 

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

 

Aplausos.  Vibraram as taças e as chávenas sobre a mesa.  Calaram-se todas as dúvidas.  O sol punha-se no horizonte, levando consigo a luz que tudo esclarece.

- “E tu, Fernando, nada dizes?” – pergunta um deles.

(continua abaixo)



Categoria: Cristina Ruiz
Escrito por Menu do Texto às 01h13
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(continuação - IV)

 

Levanta-se e diz sem delongas, Fernando Pessoa:

 

- “Meus queridos e caros heterônimos...”

 

Ajeita com delicadeza seus óculos, mira uma foto de Ophélia guardada com carinho em seu bolso e completa:

 

“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.”

 

O mundo parou de girar nesse instante. E o tempo transformou a todos os seis em uma só verdade. Na verdade que todos buscavam. Na verdade que todos fingiam.

 

por Cristina Ruiz



Categoria: Cristina Ruiz
Escrito por Menu do Texto às 01h12
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