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A CURTA coluna DE LONGO
Dor de Poeta

Daniel logo na primeira semana de namoro foi taxativo e incondicional: “Tudo Mirtinha. Tudo que você quiser. Faço qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. É só você pedir. Mas, olha, presta atenção: sábado a tarde é sagrado. Sagrado, ouviu? Não tem por onde. Sábado à tarde meu compromisso é com o Vila. Só com o Vila. Ta entendido? Estamos combinados?”
Mirtinha não disse sim, nem disse não. Tacou um beijo que o fez calar. Deixou para resolver essa questão depois, aos poucos, bem devagarzinho.
Vez ou outra ia tentando mudar a predileção de Daniel nas tardes de sábado – toda dengosa soprava em sua orelha pequenas seduções: “ - Só hoje, vai? Fica comigo? Mamãe vai sair e nós podemos ficar sozinhos, juntinhos à tarde inteirinha. Olha, hoje eu prometo que faço a Sapinha Maluca, que você tanto gosta. Fica, vai?”
Daniel, com toda a doçura: “- Mirtinha, meu amor, estou louco pela Sapinha Maluca. Meu doce, de verdade, não vivo sem você. Mas, olha, lembra, já te falei: sábado à tarde meu compromisso é com o Vila. Só com o Vila. Ta bom, amor?”
Mirtinha entristecia, fazia muxoxo, mas não tinha jeito: Daniel, invariavelmente, seguia para o seu compromisso.
Depois de um tempo, percebeu que, mesmo transparecendo toda sua insatisfação, pontualmente às 14 horas de todos os sábados – passados e futuros - Daniel não faltaria ao seu compromisso: entraria em campo para bater sua bolinha, defendendo as cores azul e branca do seu time de coração, o Vila Morse.
E Daniel até que conduzia bem a situação. Sempre atento e com faro apurado, como todo bom centro-avante deve ser, quando percebia as inquietações da amada não deixava a bola pingando, de pronto, respondia: flores, bombons, um bom jantar ou qualquer outro agrado cheio de sentimento logo restabeleciam a ordem, resolvendo e colocando ponto final em qualquer questão.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 14h29
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II.
Mas certa vez a coisa complicou terrivelmente. Anunciação, uma vizinha invejosa de Mirtinha, que vivia de olho em Daniel, tomou proveito de suas lamúrias vespertinas para atear fogo no casal:
__ Mirtinha, não quero me meter, mas acho que o Daniel não gosta de ti. O negócio dele é com a bola, a tal da Gorduchinha. Se gostasse mesmo, como ele diz, não te trocava por ela. Se gostasse ficava contigo o sábado inteiro.
__ Você acha mesmo Anunciação? Sabe, às vezes me sinto um pouco assim, trocada, preterida. Fico tão na dúvida.
__ Que horror. Estar com alguém sem saber se é de verdade. Deve ser uma sensação horrível viver assim com essa dúvida. Eu, hein? Jamais suportaria.
Depois de um tempo pensando nas palavras de Anunciação Mirtinha decidiu:
__ É isso. Preciso acabar com essa dúvida, não posso mais viver com esse sentimento. Preciso de uma prova. Uma prova de amor. Preciso saber quem é mais importante: eu ou essa maldita bola, ou esse maldito time do Vila, de quem ele tanto fala. Vai ser daqui uma semana. Sábado, daqui uma semana, é o meu aniversário. Quero-o comigo a tarde inteirinha, e bem na hora do jogo. Vamos ver se ele me ama de verdade.
__ Isso mesmo: põe ele contra a parede, amiga. Tire a prova. Aperte-o. Vamos ver se ele não refuga. Por que você não aproveita e faz uma greve de sexo? Funciona que é uma beleza...
Daí por diante sucederam-se horas de mancomunações infernalmente tramadas pela “amiga” Anunciação.
Quando Daniel chegou do futebol – recomposto, refeito pela bola - já encontrou uma Mirtinha diferente. Com olhar duro e voz altiva, ela foi direto ao ponto: “ - Daniel quero uma prova definitiva de que você realmente me ama: ou passa a tarde do próximo sábado comigo ou será o fim. E mais: não falo contigo, não atendo telefone e não respondo e-mails. E também não adianta mandar recado. Nos vemos no próximo sábado à tarde ou nunca mais”.
Dito isso, colocou-o para fora sem que o pobre tivesse tempo de pensar em nada. Quando tentou se defender já estava batendo com a cara na porta.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 14h25
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III.
Daniel passou a semana inteira atrás de Mirtinha. Tentou de tudo, sem nenhum êxito. A ausência de explicações, a falta de saber o porquê das coisas, o deixava ainda mais confuso. Uma dúvida angustiante o tomava.
A única certeza que tinha era a do dilema que o afligia. No campo sabia que o que estava em jogo era muito mais que uma partida de futebol. Era o seu oásis, o seu porto seguro. Era onde conseguia ter nome, fama, reconhecimento, reputação e, principalmente, forças para encarar a semana seguinte. Na casa de Mirtinha, há poucas quadras dali, o que estava em jogo era algo talvez ainda mais importante: lá, a aposta estava na mulher de sua vida, no sonho de felicidade a dois.
Quando sábado chegou, Daniel, ainda que indeciso, seguiu sua rotina: foi para o campo. Cumpriu o ritual: entrou no vestiário, se trocou, calçou as chuteiras, se aqueceu, em uma grande roda rezou abraçado aos companheiros, pediu proteção aos santos e deu o grito de guerra do time. Saiu do vestiário e, vagando com passos lentos e pesados, seguiu até o banheiro. De frente para a parede, totalmente alheio ao que estava a sua volta, começou a ler os versos de um poema - palavras escritas à esferográfica e já um pouco apagadas pelo tempo: “O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”.
Aquelas palavras acertaram em cheio seus sentimentos. Começaram a criar forma e fizeram pulsar, lá no fundo de sua alma, uma dor quase insuportável. Dilacerado e triste, foi tomado por uma nostalgia sufocante. Sentiu algo tão novo e tão diferente, que chegou a suspeitar de si próprio. Ficou ainda mais dividido, a ponto de por em xeque a própria identidade: “ – Será que sou eu quem está sentindo isso? O que é isso que estou sentindo? Quem sou mesmo?”
Entrou no jogo desligado e titubeante, anestesiado pelas palavras do poema. Logo no primeiro minuto tomou uma botinada que o fez cair e rolar pelo campo. Se contorcendo moveu os dedos indicadores, um em torno do outro, pedindo substituição. A pancada o fez cair em si e recobrar a identidade. A certeza de quem era realmente vinha pela dor que sentia na própria carne. Uma dor tangível, mensurável. Não era fingimento, era real. Era dor.
Saiu de campo chorando, cabisbaixo e com o dorso inclinado, entrou no carro e seguiu direto para a casa de Mirtinha. Ela, aflita e arrependida, recebeu-o de braços abertos e com um pulo atirou-se em seu pescoço: “- Pensei que você não viesse mais, nunca mais. Senti tanto medo...”. Ele segurou-a pela cintura e deixou escapar um ai abafado, urrado. Ela olhou assustada: “- Você está bem?”. Ele, com a amada nos braços, antes de ser calado por um beijo cheio de saudade e de pavor, ainda pôde arrematar certeiro, como se tivesse dado um chute cruzado no canto: “- É só dor de poeta, meu amor. Só dor de poeta”.
por Gilberto Longo
Escrito por Menu do Texto às 14h23
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