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Leonardo de Moraes
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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC
Água e óleo

Ela entrou no escritório dele, como quem não queria nada, e se sentou à frente de sua mesa. Tratou logo de esconder as mãos entre as pregas da saia.
__ Quero muito falar com o senhor.
__ Um minuto só, que estou terminando de digitar este e-mail.
Ele ajeitou a gravata e continuou, por mais algum tempo, olhando para a tela do computador. Sobre sua mesa, um porta-lápis presenteado por ela no último amigo secreto da repartição - propositalmente fraudado para que conseguisse se aproximar dele -; vários papéis para serem despachados; uma Constituição e inúmeros livros, tanto jurídicos quanto de poesia. Um, em especial, chamou a atenção da moça de mãos suadas, a esperar que ele redigisse o interminável.
__ Gosta de Fernando Pessoa? Disse ele, virando-se rapidamente nas rodinhas da confortável cadeira de couro.
__ Gosto, acho.
__ Quer pegar pra você? Digo, pegar emprestado? Depois de ler, me diga o que achou.
__ Pode ser – e ela estendeu a mão para pegar o livro sobre a mesa. Ao fazer esse movimento, revelou o que tentava esconder, desde que entrara na sala.
__ O que é isso no seu dedo?
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 18h05
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II
__ O quê? Ela ficou hesitante, havia se distraído e pretendia contar-lhe antes que fosse denunciada pela aliança que reluzia em sua mão direita.
__ Fiquei noiva... eu...
__ O que?
__ ... vou me casar.
Ele pareceu engasgar.
__ Como casar?
__ Casando, oras. O Wesley do almoxarifado me pediu em casamento, mês passado. Resolvi aceitar neste feriado e, bem, fizemos festa de noivado e tudo. A família dele inteira fez farra. Ele já pediu crédito pra construir um quartinho nos fundos da casa da mãe e parcelou essa aliança aqui e...
__ Não quero saber dos detalhes, Marta. Eu só não entendo.
__ Como assim não entende?
__ Você é apaixonada por mim.
__ Eu... o que?
__ Todo mundo sabe. E nosso envolvimento não foi apenas... apenas sexo.
__ Como? Olha, a gente havia combinado que não falaria disso aqui no trabalho. E eu sou noiva do Wesley agora!
__ Você não é noiva de ninguém. Você deve ter comprado essa aliança aí só pra me irritar.
__ Ah, vá... você não acha que...
__ Senhor, me chame de senhor, sou seu chefe.
__ O senhor é um tremendo de um umbigóide. Acha que é o centro do sistema solar?
__ Umbigóide? Puxa, que criativa! Pelo visto andou lendo mesmo os livros que te emprestei.
Ela se irritou, pondo-se de pé.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 18h03
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III
__ Vai agora também me chamar de ignorante? De burra?
__ Calma, Martha, calma. Fala baixo. A porta está aberta e todos aqui vão ouvir.
Ela se calou e sentou.
__ Inclusive o Wesley pode ouvir, não é mesmo?
__ É... vou me acalmar. Mas olha, eu vim aqui pra dizer que vou me casar e que estou apaixonada. O Wesley é o homem da minha vida e nossa relação, a partir de hoje, Dr. Teixeira, é estritamente profissional. Senão...
__ Senão o que? Me processa? Alega assédio sexual?
__ Não... não sei. Olha, quero apenas descobrir aqui, no trabalho, toda uma nova relação. Adoro os livros que me dá pra ler, adoro aprender. Mas não quero mais me envolver, me apaixonar e sentir que você...
__ Eu o quê?
__ Tem vergonha de mim. Vergonha de assumir que me ama.
__ Eu o que? Eu te amo? Ah, Marta, pára com isso!
Ela conteve o choro. As lágrimas que iriam saltar foram contidas, brilhando equilibradas entre os cílios.
__ Quer saber, acho que vou pedir transferência...
__ Olha Marta, vamos deixar essa conversa pra uma outra hora, está bem? Todos aqui gostam de você. Teu trabalho é impecável. Mas... conversamos depois, sabe que tenho uma reunião pra daqui a pouco e...
__ Está bem, está bem.
__ Leve o livro. Pegue!
Ela pegou o livro, acariciou a capa e saiu da sala.
__ Mas é o último que eu pego emprestado, Dr. Teixeira.
Quando ela deu de costas, ele ficou tenso e magoado. Talvez ela tivesse razão com relação a absolutamente tudo. Talvez ele a amasse de alguma forma. O fato é que se sentia absolutamente conectado a Marta, de uma forma estranha, visceral, genital. Mas eram definitivamente água e óleo, que até formam uma emulsão, mas apenas tendo que agitar, agitar, agitar muito. Ao pensar nisso, ele se excitou, mas preferiu focar os pensamentos na reunião de diretoria, dali a dez minutos.
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 18h02
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IV
Horas mais tarde, depois do almoço, Marta se pôs a ler o livro que ele havia lhe emprestado. Havia comido sozinha, para espairecer. Durante a leitura, encontrou em um dos poemas de Fernando Pessoa – ignorava que fosse um clássico – o alento para a maneira que se portara durante toda a manhã.
__ Marta, e aí menina? Conversou com ele? - perguntou Shirlene, sub-secretária da repartição, que havia almoçado numa mesa ao longe.
__ Ah... conversei, amiga.
__ Você é mesmo doida, Marta. Completamente insana... – e Shirlene sorriu, chupando uma casquinha de creme enquanto olhava, lasciva, para um dos garçons do restaurante.
__ Todas nós queremos nos ajeitar na vida, não é mesmo? Eu não sou doida nada, sou é doida nele. E quer saber, descobri que sou uma poeta.
__ Hein??
__ Poeta, eu sou uma poeta, Shirlene.
__ Hã? Pirou, menina? Como assim poeta? Aliás, não é poeta, é po-e-ti-sa que se fala!
__ Poeta, poetisa. Não importa. Escuta só, vou um trecho pra você:
“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente”.
__ Nossa, Marta! Que lindo! Foi você que escreveu? É uma poetisa mesmo!
__ Não, não fui eu, Shirlene. Foi o Fernando.
__ Quem?
__ Fernando Pessoa. Um escritor aí. E olha, eu descobri que sou uma poeta e não uma fingida.
__ Sei, sei. Tá bem, amiga. Mas olha, vê se me devolve essa aliança no final desta semana, senão o Waldemar vai começar a achar que eu estou tendo um caso. Eu disse pra ele que tinha levado pra polir na joalheria.
__ Está bem, Shirlene, mas vamos esperar só essa semana. Quero ver a reação do meu lindinho. Ele ficou cheio de ciúmes, eu sei. Depois vou agradecer ao Wesley pela idéia... Gays são ótimos pra pensar nessas coisas de coração, não são?
__ Deus do céu, Marta! Dizer que o Wesley é seu noivo... será que ele engoliu? Mentira mais louca.
__ Pára, Shirlene. Não sou louca! Nem sou mentirosa! Sou uma poeta! Uma po-e-ti-sa!!!
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 18h01
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IV
A história não vingaria. Na linha do destino, já estava escrito que dez dias depois Dr. Teixeira diria adeus, indo trabalhar no Rio de Janeiro. Inclusive, nesta festinha de despedida na repartição, onde os croquetes e empadinhas seriam comentadíssimos, Marta iria se embriagar e, na volta para casa, entrar numa borracharia, perto do ponto de ônibus. Segundo consta, a moça iria pedir para usar o banheiro urgente. “Eu sou uma poetisa”, ela diria sem parar para Osório, o dono do estabelecimento. Ele se apaixonaria imediatamente e, dali a pouco, se uniriam num casamento coletivo, realizado no Estádio do Ibirapuera. Os anos passariam, e ela realmente começaria a escrever poemas, bem como canções. Uma delas, Água e Óleo, viraria pagode e trilha de novela, embalando o romance de Cléo Ximenes, no papel de mocinha pobre e gananciosa, e de Tarcísio Lacerda, no papel de patrão e solteirão cobiçado.
Mas enquanto esses desvarios do futuro não se concretizavam, lá estava ela, sentada na mesa do restaurante e diante de Shirlene - que por sua vez, já trocara telefones com o garçom que desejara. Marta suspirava, plena de esperanças com relação ao seu futuro:
__ Dr. Teixeira, nosso amor será lindo! A dor que fingi, mas que sinto de verdade, vai atiçar o seu amor por mim. Você e eu, para sempre! Como num poema!
por Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 18h00
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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC
A prisão de um número

Ele tinha parado de tomar seus remédios por conta própria. Acreditava, sinceramente, que as tais químicas haviam matado o melhor dentro de si. Não conseguia mais criar, nem ver as estranhas associações entre sua existência e os quatro cantos do mundo que, melodiosos, invadiam sua cabeça com sinfonias de imagens e letras.
A duras penas, soube que um pouco de sua criatividade era loucura. Mas que a busca da completa sanidade, esta sim seria a maior de suas sandices. Pouco lhe importava se continuaria a pentear as franjas dos tapetes quatro vezes da direita pra esquerda, quatro vezes da esquerda pra direita, desde que pudesse, ainda, sentir o som de anjos lhe invadindo a mente.
Foi uma opção difícil. Em princípio, mulher e filhos ficaram com medo, mas cederam à dura constatação de que não se pode exigir de seu espírito de artista, o equlíbrio da "razão áurea" de Pitágoras. Teriam de se contentar apenas com o número quatro, a obsessão que o perseguia desde criança. Eram quatro as vezes que dizia “bom-dia” ou “boa noite”, verificava as trancas das portas antes de dormir, abria e fechava a geladeira para pegar um simples pote de iogurte. As subidas e descidas das escadas do belo sobrado também eram quádruplas, o que o fez colocar um interfone ao lado do computador, no escritório em que escrevia seus romances e roteiros. Assim, para um simples copo de água, chamava a empregada e evitava a perda de tempo, incontrolável, que o faria suar e suar de forma quase interminável.
Adaptou-se aos seus limites, e o bom-humor para enfrentar o transtorno lhe garantia momentos de esperança:
__Sabe, Seu Antônio, não tem gente que paga aulas de ‘step’ na academias? Então... posso assegurar que estou com o bumbum firme – brincava com o sogro, que revoltado com a decisão da interrupção da medicação, reclamava escondido, sempre que podia, à própria filha.
_ Como vocês podem compactuar com uma coisa dessas?
_ Pai, para com isso. Ele resolveu encarar a doença de frente. O remédio não estava adiantando. Não é sempre que eles funcionam, porque cada um tem uma química cerebral diferente.
_ Química, química, esse moço com quem você casou é um desequilibrado!
_ Pai, não vamos discutir. Está decidido e vou apoiá-lo até quando esse esquema funcionar. Nos últimos dois anos, tomando todos aqueles remédios, ele ficou completamente apático. Teve taquicardias, suador, e tinha perdido completamente a vontade de escrever. E outra: como a gente iria viver? Meu salário de bibliotecária não banca todo esse conforto! Nem a sua pensão de militar! Então, por favor, não vamos mais falar disso.
Sob um misto de resignação e confiança, todos naquela casa se deixaram acostumar com as excentricidades do número quatro. E a vida prosseguiu, demonstrando como o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Até o dia em que, durante o café da manhã, a esposa resolveu comunicar-lhe um fato:
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 16h18
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2ª parte - continuação
__ Querido, estou grávida.
__ Grávida? Mas já temos dois filhos! Eu, você e os dois, somos em quatro! Quatro, entende?
__ Por favor, se controle... eu não imaginei que... o DIU deslocou, foi o que o meu ginecologista disse e...
__ Como me controlar? Como? Como? Mãos espalmadas sobre a mesa.
O equilíbrio familiar se foi, para talvez nunca mais retornar. Ela arrumou as coisas, levou os filhos embora e o deixou terminando de escrever seu último romance. Temia que fosse forçada, de algum modo, a abortar. Não pelo marido, mas pela maldita doença que flutuava roubando-lhe o amor, a paz e toda a felicidade.
Os meses se passaram, e um exame de ultrassom trouxe outra surpresa: gêmeos.
__ Quatro filhos! Isso, agora temos quatro filhos! Então você não vai ter mais com o que se preocupar, querido! Disse ela, por telefone, após o resultado do exame.
__ Meu amor, volte pra casa. Eu tenho que te mostrar uma coisa.
Quando ela chegou em casa, filhos a tiracolo e malas no bagageiro, encontrou na sala do sobrado a mãe de seu marido, um parapsicólogo e seu companheiro, deitado grogue sobre o sofá.
__ Meninos, subam pro quarto. Depois pegamos nossas coisas. Subam, já!
(continua abaixo)
Escrito por Menu do Texto às 16h17
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3ª parte - continuação
__ Querida, ele tem se submetido a uma terapia diferente, durante esses quatro meses que você esteve fora. Regressão, já ouviu falar?
__ Claro, claro que sim, Dona Dirce. Mas... e aí?
__ E aí, querida, que descobrimos o porquê de tanto sofrimento. Com a terapia convencional, ele não se lembrava ou, talvez, bloqueasse a memória. Por Deus, eu não sabia que ele tinha presenciado aquilo. Nós achamos que ele tinha ficado mudo, durante alguns meses, pela saudades do pai... eu não sabia que...
__ Presenciado o quê? Do que a senhora está falando, Dona Dirce?
__ Escute você mesma. Eu estive presente nas sessões anteriores, a pedido do parapsicólogo. Logo teu marido vai começar a falar...
Deitado no sofá, ele começou a balbuciar, sob os comandos do profissional.
__ Papai, não, não...
E veio à tona, finalmente, que aos quatro anos de idade, depois de encostar seu quadriciclo no quintal, ele encontrou seu pai na garagem, de costas e arma empunhada contra a própria cabeça.
“Maldito seja você, Deus dos infernos! O que alguém pode fazer com esse tempo? Quatro meses? Quatro? Que droga de tempo é esse? Eu não quero viver, se tiver que ser preso neste número de merda!!!”
A visão da morte do pai garantiu-lhe a mudez durante bons meses. Mas quando voltou a falar, passou a comer cada vez menos. Em seu desespero de mãe, um comentário involuntário lhe coroou o trauma.
“Você não pode ser fraco como o seu pai! Tem de lutar pela vida, não importa como ou o quê ela te apresente! Não seja como o seu pai! Não seja!”
As associações na mente de uma criança vão para destinos desconhecidos. E não ser como o pai significou, inexplicavelmente, suportar a idéia de uma vida preso a um número. O quatro estaria em tudo aquilo que lhe significasse viver, e assim teria sido, até o final dos seus dias.
__ Meu Deus, Dona Dirce... Meu Deus...
As sessões de hipnose prosseguiriam durante mais algum tempo, seguidas por longas sessões de terapia coletiva. Novos medicamentos também seriam testados e dali a poucos meses, seu livro “A prisão de um número” se tornaria referência sobre a luta de um escritor contra a matéria-prima de sua própria genialidade. E o casal de gêmeos, chorando no berço, conseguiria que seu pai corresse apressado para pegar as mamadeiras, num único e simbólico descer e subir de escadas.
por Leonardo de Moraes
obs.: história baseada em narrativa clínica de TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo)
Escrito por Menu do Texto às 16h13
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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC
O amor e a água

Numa das minhas primeira encarnações, logo após ter deixado de me pendurar em árvores pelo rabo, escutei algumas das idéias de meu velho e bom mestre Empédocles (490 a 430 a.c), enquanto lhe servia uma taça de ambrosia.
Nestes idos de togas e louros na cabeça, ele me contou que para construir tudo o que existia na Terra seriam necessários quatro elementos: ar, água, fogo e terra; e que com as diferentes concentrações de cada um destes quatro elementos, as diferentes misturas dariam origem a coisas distintas, como a madeira, o barro, o vapor ou mesmo a rocha. Para equilibrar os ingredientes, tais substâncias estariam sujeitas à ação de dois princípios fundamentais: amor e ódio.
Ele me assegurou que a água, sobretudo, podia ser impregnada pelo amor. Afirmou que eu deveria sempre ter bons pensamentos quando fosse bebê-la em refresco e que, projetando tal princípio em apenas uma única gota, poderia obter a energia necessária para mudar meu interior e o mundo ao meu redor.
Eu fingi entender, num jeitinho de futuro brasileiro que seria. Recolhi-me aos meus aposentos de servo e o máximo que pude concluir de toda aquela história é que talvez o amargos da ambrosia que havia servido (e bebido escondido), deveriam ser por conta dos mau-humores da nova cozinheira, presenteada por um poderoso político de Atenas... Pois bem, na manhã seguinte, eu e meu mestre não amanheceríamos, envenenados que fomos.
Hoje, ao deitar minha cabeça no travesseiro, impossível não pensar justamente que, de todos os elementos do universo, estão a rarear os dois mais importantes: o amor e a água. E que esta continua a ser inescrupulosamente envenenada por maus políticos, a despeito dos melhores pensamentos de qualquer filósofo bem-intencionado.
Por Leonardo de Moraes
Nota de rodapé: Empédocles realmente existiu, e foi precursor de algumas idéias de Aristóteles, que as aprofundou e ampliou. Quanto à sua verdadeira morte, conta a lenda que o filósofo teria perdido sua sanidade, escalando o vulcão Etna e colocando-se de pé diante de sua borda esfumaçante. Bradando aos quatro ventos que era o próprio Deus-vulcão, teria se jogado e morrido imediatamente nas lavas incandescentes. A versão histórica, no entanto, é muito diferente: ele teria morrido à época da Guerra do Peloponeso, assassinado pelos oligarcas, cansados de suas "absurdas" idéias sobre democracia.
Escrito por Menu do Texto às 14h56
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coluna COM GELO, LIMÃO E PROZAC
Encanto espontâneo

Nela, o que mais me encanta é o improviso, a maneira como segura a presilha entre os dentes para refazer o rabo de cavalo, a expressão contraída diante de um café muito quente; o riso maroto sob o edredon quando quer ser amada.
Se me lembro, reapaixono.
Calcinhas brancas de algodão, a invisível barriguinha do mês, o cabelo molhado depois da ducha. Quem precisa de olhares semi- cerrados de rímel ou lábios contornados de vermelho?
A sensualidade previsível é entediante e emburrece os sentidos. Cintas-ligas, rendas pretas, corpetes irrespiráveis, chapinhas para alisar franjas e biquinhos sexies estufados com muito batom – ativada está uma parte quase racional do desejo humano:
__ Ooohh, it´s time to do it!.
E após o gozo, o vazio da identidade no atacado, e a impossibilidade de qualquer conversa a granel:
__ By the way, what´s your name?
Lembro do meu avô contar, logo que entrei na adolescência, que se excitava com o cheiro misto de sabão e coentro que tinham as mãos da minha avó e a maneira como ela, durante a lida diária das tarefas de casa, se esforçava para prender uma mecha anelada, que caia solta em seus ombros. Pura espontaneidade, que fazia meu avô redescobrir o céu e os calores do sétimo círculo, numa sensação de vida e prazer irrepetíveis - lembrança quente durante seus anos de viuvez.
Pois bem, tenho cá pra mim que não existe sensualidade longe do espontâneo. Encanto recriável em laboratório não é alquimia, é alopatia genérica. Na correria em que nossas vidas se tornaram, acabamos por aceitar toda uma simbologia estéril, seja estética, seja sensual. Exercitamos nosso desejo diante de figuras totalmente clonadas umas nas outras, e a razão para isso não pode ser outra: medo. Pois sim, medo de – assim como meu avô – terminarmos reféns de uma química irrepetível; dependentes de um medicamento que não comportará substituições, e certamente deixará nosso coração adoentado para sempre, até o dia do Grande Reencontro.
Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 11h49
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coluna COM GELO, LIMÃO e PROZAC
Oculto em Vermelho

Quente e completamente visceral. O joelho doía muito, ralado forte que estava. Minhas mãos foram inundadas e não pude deixar de perceber um certo cheiro estranho, metálico. “É ferro, o sangue tem muito disso...” soube instantes depois, da boca do meu irmão mais velho.
__ Ferro? Igual de prego, lata, porta?
__ Pois é, o corpo está cheio dessas coisas, ele me disse. Também tem zinco, molibdênio...
__ Mole o quê?
__ Nada, nada... Vai lá lavar com água e sabão!
Fiz o que me foi dito. Lavei e depois coloquei um Band-Aid, que fez questão de cair na brincadeira seguinte e deixar exposta a casquinha. Tenho a marca até hoje, tanto que futuquei, e talvez por isso não consiga esquecer a estranheza da descoberta do metal nas minhas veias, naquela ocasião. Eu tinha seis anos e meus conhecimentos se limitavam a rir da família do ‘c’, que combinava em “ca”, “co” e “cu”. Nada mais engraçado, para um menino, que falar besteira. Mas fiquei acabrunhado, tentando entender porque o sangue era um tanto mais rico que tinta vermelha, ou groselha engrossada com Nescau.
Dias depois, na casa de minha vó, ela estava a cozinhar feijão numa panela grossa, escura:
__ É pra deixar mais rico, mais nutritivo... A panela solta um pouquinho que seja de ferro, e faz bem.
__ Hã? A gente come a comida com raspa de panela?
__ Na minha época, as mulheres ainda colocavam pregos de ferro. Diziam que combatia a anemia.
__ Mia o quê?
__ Fraqueza, Leonardo. Fraqueza que as pessoas sentem quando não comem direito.
__ Mas vovó... então é verdade essa história que o Alê me contou?
__ Claro. A gente tem um tanto de coisas no sangue – e ela se pôs, carinhosamente, a me adiantar o que dali a poucos meses estaria ouvindo em sala de aula. Iria conhecer, a grosso modo, todo o mundo que estava oculto em vermelho, dentro das nossas veias. Mas uma preocupação séria começou a tomar conta de mim. Resolvi perguntar à professora:
__ Tia Célia, mas a gente não corre o risco de enferrujar?
Pronto. Até pensei que estariam então justificadas as dores e durezas das juntas da minha avó. Mas não... logo vieram risos gerais dos coleguinhas de primário.
__ Não, Leonardo. Isso não acontece porque... – e sucedeu-se uma explicação que já se apagou da minha mente. Não conseguia entender qual era a graça da coisa, pois a pergunta me pareceu absolutamente inteligente. Ignorei a platéia por completo. Dessa lição, eu jamais me esqueci.
Tempos depois, já nos fins da década de 90, lembro de ter lido numa revista de academia o início da discussão sobre “oxidação”, “liberação de metais”, “desgaste celular”. Estava iniciada a discussão sobre as causas do envelhecimento, e tempos depois seria comentário-de-mesa-de-bar falar sobre os tais “radicais livres”, a provocar um verdadeiro “enferrujamento” microscópico. Impossível evitar as recordações da minha infância e não concluir, no dia de hoje, que manter a mente aberta, se permitir associações-livres e sobretudo não ter medo de falar o que se pensa, é o caminho pra afastar a ferrugem intelectual.
Leonardo de Moraes
Escrito por Menu do Texto às 09h42
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