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Cristina Ruiz



coluna ANDALUZA

POETAS

 LM

 

Lisboa, 1915.

No Largo de São Carlos, na mesa de um café, estão sentados a conversar seis amigos inseparáveis. Seis poetas admiráveis. Seis escritores das verdades.

Discutiam entre si, filosoficamente, em meio a chás fumegantes, licores e acepipes, o tom da verdade de cada um deles.

O francês Chevalier des Pás é o menos atuante do grupo, tendo outra profissão que o afasta sistematicamente dos meios literários, embora não menos culto, afirma, com seu sotaque de “erres”

 

 “ - Que a verdade é relativa ao seu tempo e ao momento em que se apresenta.”

 

Os outros desconfiam, mas assentem.

Alexander Search, inglês nascido em Durban e por isso mesmo um tanto mais pragmático, determina com sua forte personalidade, que a verdade de uma questão é fundamental para que ela seja compreendida.

 

“- But since men see more with the eyes than the soul.”

 

Dúvidas pairam no ar.

(continua abaixo)



Escrito por Menu do Texto às 01h15
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(continuação - II)

Alberto Caeiro, que raras vezes deixava sua quinta em Ribatejo, já apresentava por aqueles dias de 1915 a fraqueza dos pulmões que o mataria alguns meses depois, mas ainda assim, entre suspiros e sorrisos, diz poeticamente:

 

“- Estas verdades não são perfeitas porque são ditas. E antes de ditas, pensadas.”

 

Os outros todos o miram num misto de pena e admiração. 

Concordam com ele, mas ainda assim querem compreender mais e mais, na incessante busca pelo real.

Quedam-se calados, mirando as pedras irregulares do piso, o céu, os transeuntes. A fumaça do cigarro. Buscam inspiração no entorno que lhes é palpável. Sabem que a verdade é momentânea.  Como o sol preguiçoso da tarde que se desfaz em Lisboa.

Após cinco soberbas taças de vinho, Álvaro de Campos, o mais rompante d’entre todos, sente-se à vontade para bradar em meio ao silêncio:

 

-“Graças a Deus, porque, como na bebedeira,

Isto é uma solução,

Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!

Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!”

 

Algumas pessoas nas outras mesas viram-se para olhar de onde partiu tal grito.  Sem se deixar intimidar, Álvaro brinda no ar sua taça que já ia a meio e lhes sorri. Os amigos riem, divertidos. Álvaro arria-se na cadeira, displicente.

(continua abaixo)



Escrito por Menu do Texto às 01h14
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(continuação - III)

 

Depressivo e triste como um fado, Ricardo Reis, que nada bebia que o pudesse entristecer ainda mais, como se isso fosse possível, abusa de um falso estoicismo e tenta iludir o sofrimento resultante da consciência aguda da precariedade da vida. Levanta-se, faz mesura e diz:

 

- “Para ser grande, sê inteiro:  nada Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.

 

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

 

Aplausos.  Vibraram as taças e as chávenas sobre a mesa.  Calaram-se todas as dúvidas.  O sol punha-se no horizonte, levando consigo a luz que tudo esclarece.

- “E tu, Fernando, nada dizes?” – pergunta um deles.

(continua abaixo)



Escrito por Menu do Texto às 01h13
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(continuação - IV)

 

Levanta-se e diz sem delongas, Fernando Pessoa:

 

- “Meus queridos e caros heterônimos...”

 

Ajeita com delicadeza seus óculos, mira uma foto de Ophélia guardada com carinho em seu bolso e completa:

 

“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.”

 

O mundo parou de girar nesse instante. E o tempo transformou a todos os seis em uma só verdade. Na verdade que todos buscavam. Na verdade que todos fingiam.

 

por Cristina Ruiz



Escrito por Menu do Texto às 01h12
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coluna ANDALUZA

Faz um QUATRO aí....

 

 

O quarto texto é o QUATRO.

É o quatro regendo a vida.  

As quatro estações Vivaldi.

Primavera, Verão, Outono e Inverno, fazendo morrer e renascer os quatro cantos do mundo, nos seus quatro pontos cardeais.

A bússola da vida e o seu magnetismo.

- E se o Norte fosse embaixo, tudo seria diferente?  

O sol nasceria no Oeste e o Cruzeiro não seria do Sul.

As quatro fases da Lua regendo nossas paixões e as belas palavras do poeta.

Lua cheia das noites de ardentia.  Lua Crescente das marés e das colheitas.

Nossa sorte encontrada nos trevos de quatro folhas ou nas quatro partes do Obí.  

O destino que se divide em quatro dias: nascer, crescer, procriar e morrer.

São todos os amores vividos de quatro entre quatro paredes, gemidos e gritados aos quatro ventos.

O ser humano de quatro membros andando sobre as quatro patas de um cavalo, moderno sobre as quatro rodas de um carro veloz, nas quatro semanas do mês.

Quatro anos de mandato, sinfonia tocada a quatro mãos no piano do Congresso.

 Só por Deus e os quatro evangelistas a nos guiar: Mateus, Lucas, João e... hummm, esqueci o quarto.   

 Tiago, Tiago!  Se o é maior ou  o menor, já não sei.

O que importa é que desde Pitágoras dois mais dois ainda são quatro.

Os quatro quartos de um inteiro. 

O ser humano inteiro, mas sempre de quatro.

As quatro cores da bandeira. O Verde das matas e das queimadas, o Amarelo do ouro que já não temos, o Azul do céu e da camada de ozônio e o Branco da paz que não chega nunca.

Descanse em paz.

Os quatro Ases na manga. 

Quatro naipes de um mesmo baralho. 

O Imperador, arcano quatro do Tarot – apoio, proteção, poder e estabilidade. 

As quatro faces da pirâmide de Gizeh.

Os quatro lados do quadrado.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse prometendo desgraça, miséria, fome  e o Diabo a Quatro.

Se beber não dirija e faz um QUATRO aí que eu quero ver.

 

por Cristina Ruiz



Escrito por Menu do Texto às 10h38
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coluna ANDALUZA

Duas lágrimas...

 

 

- O que foi dessa vez?

- Ainda não sei.

- Por que ela está assim tão triste?

- Parece que é o de sempre

- Mas isso não pode continuar...

- Não nos cabe evitar...

- Tem mais alguém aí no quarto?

- Não.  Ele deve estar lá embaixo.

- Acha que ele a magoou profundamente outra vez? 

- Ele sempre a magoa, decididamente.

- Mas por que?

- Quando a paixão vai embora começam as mágoas.

- Por que ele não vai embora também?

- Para vingar diariamente a morte do amor.

- Queria tanto vê-la sorrir.

- É uma questão de tempo. Tudo pode mudar.

- Tudo sempre pode mudar...

- Mas ela tem que querer que tudo mude.

- A nós só resta fazer o nosso papel. 

- Aliviar a sua dor...

- Lavar a sua alma.

- Ahhh... Agora a música que ela tanto ama.

- Vai sofrer mais ainda. 

- Virão muitas outras depois de nós...

- Talvez seja bom para exorcizar todo o tormento.

- Ou apenas um tempo de renascimento até a próxima mágoa.

- Sufrágio talvez...

 

E as duas lágrimas se calaram, brilharam nos olhos e rolaram lentamente pela face, como as águas abençoadas de uma chuva vinda do coração.

 

por Cristina Ruiz



Escrito por Menu do Texto às 09h38
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coluna ANDALUZA

Sensualidade Plena 

Sabiam apenas as palavras um do outro.

Os olhos entrelaçaram-se, congelaram no tempo, raiou uma faísca.  Um olhava penetrante, o outro firmava-se no desejo. Nem se pronunciou palavra; só se prenunciou sorriso. 

O silêncio os obrigava a gestos eloqüentes. Estavam conscientes do seu sentir, expostos em todo o seu ser.  Sensibilidade crescente.  Sensualidade plena. A beleza atraente dos sentidos.  Sensação etérea e majestosa.

Mantinham-se sós em meio a muitos.

Tanto queriam dizer, mas de forma enigmática permaneceram calados, como se as palavras pudessem quebrar a fluidez do encanto. Olhos a desvendar cada vão do corpo, cada lampejo da alma, cada desejo oculto.

Compreenderam-se.

Eram belos e jovens um para o outro, apesar de todas as suas décadas. Juntos tinham mais de século. Mas já nada lhes importava.  Uma paixão secular, vivenciada através das eras.

Reencontraram-se.

Mergulharam em si e deram-se a saber.  Tudo tornou-se imenso. Tudo tornou-se intenso. Tudo tornou-se insano.

A língua passeou úmida pelos lábios e as mãos reuniram-se num pouso suave. Sustentaram um ao outro.  Uma elipse de tempo que não se contaria nos dedos, num turbilhão de sentimentos e sensações.

Um abraço lânguido, agradecido. Profundo encontro de carnes insolentes e de espíritos vibrantes. O tremor da tentação.

Como se as gotas de uma imaginária chuva de verão escorressem ligeiras pela pele macia, arrepiando os mamilos de exuberante feminilidade, entregaram-se ao prazer do toque, máximo deleite, ouvindo-se apenas um gemido abafado junto ao peito másculo.

Por um instante eterno pertenceram um ao outro. Fizeram amor na penumbra de suas mentes, sob o signo da sensualidade que os mantinha tesos.

Partiram levando consigo a vívida lembrança de palavras que não foram ditas e de um beijo caliente que apenas pairou no ar.

 

por Cristina Ruiz



Escrito por Menu do Texto às 14h40
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coluna ANDALUZA

LOUCURA EM VERMELHO

 

 

- Vermelho!!

- Que? – perguntou, assustado

- É!!  Eu queria me casar de vestido vermelho, com o Bolero de Ravel ao invés da Marcha Nupcial.

- Só se fosse num terreiro de macumba, parecendo uma louca pomba-gira – riu, meio bravo.

Fiz muxoxo.

 

*   *   *

 

Houve uma noite que acordei com certa angústia.  Era madrugada e meu sono fugiu de forma intempestiva, deixando-me um vazio no olhar que escrutinava o escuro do quarto tentando imaginar que horas seriam.

Minha vida andava tão do avesso. Não queria pensar.

Queria pintar, pintar indefinidamente.  Era como se algo me chamasse, me empurrasse, me obrigasse.

A tela tão branca e a tinta tão vermelha.  Era o que eu precisava.  Vermelho.  Vermelho-sangue!  Vermelho por-do-sol.  Vermelho do bico-de-lacre ou da casca da maçã. 

A tinta ia se espalhando sob meus dedos macia, brilhante, molenga, com seu cheiro de criança levada. Foi tomando todos os pedaços do tecido e transformando minha noite num momento mágico e decisivo. 

O fascínio era mais forte que o juízo e eu seguia pintando noite a dentro.  Colando, masseando, interferindo sobre a superfície apaixonante. Já não usava pincéis, nem espátulas, mas as mãos, sentindo nascer delas a obra quase mediúnica.

Todo o vermelho me invadia e eu tomava-lhe posse.  Meus pés podiam caminhar sobre a cor rubra, dominando o mar vermelho e eu fui um pouco Moisés atravessando a imensidão, com medo e fúria.

Quando a noite partiu para os lados do Oceano Pacífico, eu tinha diante de mim a obra pronta.  Tinha agora o olhar pleno de vermelho, sob a tênue luz do amanhecer.

Amanhecia em mim um madrigal de sentimentos, como se alguém houvesse me amado docemente por toda a noite. Tinha a obra por calada testemunha.

Eu a chamei Loucura.

 

CRISTINA RUIZ  - mais sobre a autora: blog "Um leque andaluz"



Escrito por Menu do Texto às 10h43
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