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Vanessa Zago



coluna A VAGA SAGA DE ZAGO

O vão

“Não acredito que este vestido tá apertadoooo!” Otávia rodopiava pelo quarto lutando com o zíper.

Suada, descabelada e acabada, ela sentou no sofá e por um bom tempo ficou lá, olhando por baixo do braço admirando aquele espaço, aquelas duas partes que um dia se uniam de forma tão fácil, tão simples, tão sem nem pensar, só zip e pronto. E hoje pareciam inimigas mortais! Nada as fazia ficar juntas, uma mínima aproximação e a sensação que dava é que se afastavam ainda mais, só uma ponte para unir as duas bandas. Logo que colocou o vestido parecia ser só um espacinho, mas agora eram quatro dedos!

 

Invadida por uma nova onda de sentimentos, ela se afundou nas almofadas tentando arquitetar como tudo isto aconteceu. Que fatores levaram à aparição deste vão de quatro dedos!? Os bombonzinhos da TPM? O amendoim do Happy Hour? Aquele cereal matinal integral? O novo vício de degustar os capuccinos nestes cafés da moda? A descoberta de que mortadela é realmente bem melhor do que blanchet de peru? Ou será que foi o que deixou de fazer? A academia, a caminhada de sábado ou aquela viagem de ecoturismo? A promessa descumprida de usar as escadas ao invés do elevador?

Ah! A culpa pode não ser só minha. E se a máquina fez mal para o vestido e até agora ele estava em choque, todo encolhido!?”. Sacudiu a cabeça porque já começava a se perder em devaneios “otavianos” (neste caso, literalmente bem justos).

 

Fechou os olhos, respirou, se largou de vez no sofá e pronto! Pensou rapidamente em uma nova combinação muito mais fashion, alto astral, que com certeza chamaria mais a atenção: ela iria a-rra-sar!. Afinal o que ela realmente queria era ir naquela festa.

Levantou e começou a se arrumar. Deu os últimos retoques e quando estava pronta para sair, olhou ao redor do quarto. Sua atenção foi parar no vestido que jazia largado no chão. Agarrou-o com toda força, e disse bravamente:

Eu juro que vou entrar em você. E logo! Vou perder quatro quilos! Um quilo para cada dedinho!

Deixou o vestido no sofá, e se virou vaporosa em direção à festa.

 

por Vanessa Zago



Escrito por Menu do Texto às 22h53
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coluna A VAGA SAGA DE ZAGO

Religare

 

Dona Janaina, D. Jaja para os íntimos, é uma senhorinha de 68 anos que sempre deixou suas vontades para depois. Como ela mesma dizia, o dever vem antes do prazer. E seguia assim, trabalhando, trabalhando e trabalhando. Só que naquela manhã ela acordou diferente. Um sonho há muito adormecido veio à tona: “É hoje que faço a minha matrícula!”.

 

Vira e mexe ela namorava a escola; a vontade vinha e ela ia, a consciência vinha e ela voltava, a vontade vinha e ela ia... Só que dessa vez ela ligou, conversou e se matriculou! Em seguida foi para o quarto buscar o bem guardado kit natação que ganhara de seu filho Marcondes, e começou a se preparar. Maiô posto. Roupão vestido. Havaianas colocadas. Touca de banho e óculos na bolsa. Ela estava preparada para sua primeira aula de natação.

 

Chegou à escola Blue Water e seguiu em direção à piscina, sentindo-se um tanto quanto desconfortável. O ar era quente e úmido, o aroma espesso, um barulho de fundo de gotas... Quando ia começar a pensar que na verdade deveria voltar a seu trabalho, trabalho e trabalho, sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se e viu o professor. Ele apontou para a piscina sorrindo.

 

Ela olhou para aquela imensidão azul e colocou um pé. Outro pé. Depois a batata da perna e os joelhos. Deu uma paradinha. E seguiu, barriga, dorso e, graças a Deus, o chão chegou. Então, com todo seu instinto de sobrevivência grudou a barriga na parede da piscina, agarrando às bordas e sentindo o gelado dos azulejos em sua mão. Ficou assim por um certo tempo. Um ligeiro pensamento de que iria atrasar seu tricô passou pela sua cabeça, mas deu uma escorregadinha e ele logo foi embora.

 

Aí ela foi se “aclimatando” e começou a se mover, claro que sempre grudada na parede da piscina. Ia contando os azulejos: 1... 2... 3. Conforme passava de um azulejo para outro, era como se apertasse um botão que ativava um flash de lembranças que há muito estavam trancadas: 4... o primeiro beijo no portão; 5... quando o filho caiu da bicicleta; 6... aquele Julho em Lindóia...

 

E assim absorta nas suas memórias mais queridas foi relaxando, sendo abraçada por toda aquela água, todo aquele sonho de aprender a nadar. E começou a sentir-se matriculada consigo mesma.

 

Por Vanessa Zago



Escrito por Menu do Texto às 01h12
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